Memória

Discreta, chegaste sem avisar, escondida por detrás do primeiro toque, o primeiro som, o primeiro cheiro e, mais tarde, o primeiro olhar.

Acompanhas-me, proteges-me, vigias-me, os medos, as leituras, as conversas, os caminhos, para onde o “sopro” que “anima” a vida, parece querer-me levar.

Crescemos juntos, aprendemos juntos, numa cumplicidade que nos une, nos identifica, singulariza, e não podemos quebrar.

És tu, discreta, escondida, que me permites caminhar, aprender, reconhecer, questionar e poder responder. És tu, discreta, que me permites viver, criar – ser. Que me permites “ver”, ousar, predizer, viajar ao futuro e regressar.

És tu, discreta, que não me permites enganar, desorientar, caminhar sem destino, perdido, sem me conseguir encontrar.

És tu, escondida, que não me podes faltar – guardas os meus segredos, o meu passado, a minha identidade; tudo – o que sei, o que amo, e amei, o que sou, fui, e, contigo, só contigo, poderei, “animado” pelo “sopro” que me inspira – a vida, ousar a aventura da conquista do traduzido pela, intangível, expressão, serei.

És tu, de quem, por último, me despedirei, quando não for mais do que uma ruína, o resto – de nós, sem futuro, estrutura, identidade, conhecimento e vaidade.

És tu, que mereces saber, que és quem me inspira – a ser.

Jorge Manuel Ventura

Professor

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“ Com as mesmas regras que constrangem um principiante, o jogador de xadrez mais veterano desenvolve estratégias que parecem incríveis ao primeiro.

No entanto, qualquer pessoa pode aprender xadrez, e a única maneira de aprender é jogando.

Na verdade, jogar é muito mais do que mover as peças de acordo com as regras. Quando se joga, cria-se.”

Miquel Albertí, A criatividade Matemática


“ E tu és a música, mas só enquanto a música dura”.

António Damásio, O Sentimento de Si

Momentos

Convidaram-me a olhar, a ver – a pensar; que há diferença, diferenças – outras formas de conjugar o verbo – aceitar.

Aceitei o convite; pedi desculpa e tentei justificar – porque não percebo a linguagem que a imagem quer comunicar.

  • A forma? – A cor? – A Cultura?

Olhei – vi a cor, as cores, até onde a visão me permite penetrar; li os discursos, os costumes, os conceitos, até onde a aparência consegue enunciar.

Reparei – atentei na diferença que as diversas formas e culturas conseguem expressar. Não vi – diferentes, nem necessidade de aceitar, tolerar.

Há momentos que nos convidam a parar, a ver, a olhar, a reparar e a pensar – o quão importante é viajar, pela imagem, pela mensagem, para poder regressar, ao passado, onde aprendemos a conjugar o que é – fraternizar.

Há momentos que nos ensinam que todos, mesmo os melhores, podem errar – que o erro acontece e, só esse, se deve sujeitar ao escrutínio do verbo tolerar.

A forma, a cor, a Cultura, ou o modo de exteriorizar, pela aparência, os costumes ou, a genética familiar, não estão sujeitos ao juízo que a gramática outorgou à redação do enunciado da aceitação.

Há momentos que nos mostram o erro que a Revolução Francesa não conseguiu colmatar; que a Declaração Universal dos Direitos do Humanos não conseguiu sufragar.

Há momentos em que importa pensar.

Há momentos em que importa tolerar.

Jorge Manuel Ventura

Professor


Observação 1: Não ignorando poder estar equivocado, não ignoro, concomitantemente, que equívocos como os que as fotografias podem traduzir, poderão legitimar tantos erros que continuamos a perpetrar. Que possam conferir, contemporaneidade, a expressões como a que, abaixo, deixo, para revisitar.

Observação 2: No passado, diferentes culturas desenvolveram diferentes sistemas de contagem, utilizando, repetidamente, partes do corpo, a que se chama «contagem anatómica». Mais tarde, evoluímos, pela mão de Georg Cantor, matemático alemão, que abordou o problema do infinito e mostrou como continuar a contar, quando os números se esgotam.

“Mudadas, assim, as condições da cidade, em lado algum restava vestígio do antigo e íntegro costume; finda a igualdade entre os cidadãos, todos aguardavam as ordens do Príncipe sem nada temerem, já que Augusto, no vigor da idade, mantinha o estatuto, a casa e a paz”

Tácito – Século II

AMAR EM TEMPO DE MEDO

Caminho, sobre as labaredas que não me deixam abrandar, assustado, pelo zumbido, forte, de um ciclone, que me persegue, e não me permite sossegar.

É um tsunami, de adrenalina, que jorra, em correntes, fortes, que correm, fugindo, agitadas, do estrondo do trovão, que ensurdece, a cada bater do coração.

É a explosão, violenta, ruidosa, do invólucro da razão, que se fragmenta, expande, e me faz corar, transpirar, e sentir a confusão.

Confuso, caminho, sozinho, agitado, tomado pela emoção, que se aproxima, indiscreta, coreografando, sobre as brasas, o crepitar da combustão.

É o susto, o salto, o imprevisto, o quebrar da bússola e a desorientação.

É o tempo, que me foge, que se esconde, me oculta o caminho e ameaça com a evasão.

É o tempo, sempre o tempo, que me parece assustar.

É o tempo, também o tempo, que eu quero conquistar.

É o medo, de não ter tempo, para inventar novas formas de amar.

Jorge Manuel Ventura

Professor


“ Antes do século xx, os cientistas tinham tomado como certo que espaço e tempo são coisas diferentes. Na verdade tempo e espaço, parecem ter caraterísticas muito diferentes: o tempo flui do passado para o futuro, enquanto o espaço parece estar «todo ali», de uma vez. Portanto, foi uma releitura radical da natureza a de Hermann Minkowski quando, na sua interpretação matemática da teoria da relatividade restrita de Einstein, prescindiu de «espaço» e «tempo» como entidades distintas e os substitui por uma única entidade: o espaço-tempo. Como afirmou, ousadamente, Minkowski: «Doravante, o espaço em si, e o tempo, em si, estão condenados a dissolver-se em meras sombras, e só uma espécie de união dos dois preservará uma realidade independente».”

Philip Goff, O erro de Galileu

“Ao sair de casa talvez tenhamos a sorte da passar pela praia e contemplar no mar a linha do horizonte, até onde a nossa vista alcança, nos confins da superfície do planeta. Quem alguma vez pensou em questões matemáticas enquanto contemplava o horizonte?”

Na sua obra Ciclos, o escritor Espanhol que se celebrizou com as iniciais F.M. vê no horizonte um bom lugar para situar a utopia:

“Para que serve a utopia? Ela está no horizonte. Se me aproximo dez passos, o horizonte afasta-se dez passos mais para lá. É para isso que ele me serve, para aprender a andar”.

A afirmação é correta, pois os passos são efetuados sobre uma esfera.

Miquel Albertí, A Criatividade em Matemática AMAR


Antagonismos

Escuto, quanto te olho, o silêncio das histórias que me contas, do tempo das saídas, partidas, entradas, chegadas.

Do tempo da cumplicidade, que guardas na tristeza do olhar, com que me espreitas, ao passar.

Manténs-te fiel, guardando, em segredo, as memórias do passado, agitado, onde, presente, te mantiveste ausente, protegendo, do olhar frio e indiscreto da noite, o calor da felicidade, ruidosa, que te angustia, quando recordas a dor que, desesperadamente, camuflaste, num exercício perturbador, onde a segurança que oferecias, deixava sem proteção, todas as vidas, perdidas, vencidas.

Escuto, quando te olho, a resignação e a culpa, pelos encontros que não soubeste guardar, pelos desencontros que não conseguiste evitar, pela dor, que te forçaram a camuflar.

Olhas-me, devagar, com a tristeza de quem, cansado, se entrega ao destino, traçado, pelas tábuas que te viram nascer e, agora, inútil, te anunciam, num discurso, grosseiro, rude, o ocaso que ameaça aparecer.

Tantas vidas, tantas histórias, tantas aventuras, entradas, desventuras – ousadas.

Tanto amor, tanta dor, tanto encontro, desencontro, barulho e odor.

Olhas-me, devagar, com a humildade e o silêncio com que me queres confessar, que tudo passa, tudo é fugaz, mas vale a pena viver, para sentir, escutar e ver, quem, como tu, soubeste ser, protetora, cúmplice, discreta, atenta, humilde e bela, mesmo quando te querem esconder.

Jorge Manuel Ventura

Professor

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“ Tigre, tigre, que flamejas pelas florestas noturnas, que mão, que olhos imortais ousaram moldar a tua temível simetria?

William Blake (1757 – 1827)

RANKINGS – Uma Sucessão de Equívocos

Uma Sucessão de Equívocos

Recorrentemente, somos confrontados com interrogações para as quais procuramos resposta, ou, alternativamente, respostas, que possam suportar – acreditar, as nossas experiências, vivências, emoções, impulsos, deduções, conclusões.

Na dúvida, não hesitamos em adotar a prudência, nas conclusões, e decisões.

“Não basta, de facto, ter o espírito bom: o principal é aplica-lo bem.”1

Recorrentemente, animados pela proximidade e familiaridade com as experiências – quotidianas, somos conduzidos por caminhos que nos precipitam em conclusões e decisões que que não suportámos, acreditámos, por meio de respostas a questões, interrogações.

“Todavia, pode acontecer que me engane e talvez não passe de um pouco de cobre e de vidro o que tomo por ouro ou diamantes”. 2

O que é a escola? O que é a Escola? O que é uma escola?

Recorrentemente, falamos de escola, de Escola e, da escola, sem atentarmos no que possam querer significar.

Recorrentemente, são-nos apresentados rankings – listas ordenadas, de onde decorrem deduções, conclusões e decisões, sobre as “melhores”, as “piores”, as “razões”, as “condições” e, peço desculpa pelo abuso e inadequação, as ilusões.

“Sei quão sujeitos estamos a iludir-nos naquilo que nos toca e como devemos suspeitar dos juízos dos amigos quando a nosso favor.” 3

Em 27 de junho, último, após a divulgação dos Rankings 2019, li, ouvi e vi, títulos, textos, intervenções, entrevistas, onde se identificavam as “melhores”, as “piores”, e se perguntava a razão, as razões, enunciando-se deduções e inspirando decisões.

Questões legítimas, que nos parecem oportunas, mas que nos traem nas respostas.

“ Testemunha-se, antes, que a faculdade de bem julgar e distinguir o verdadeiro e o falso – propriamente o que se chama de bom senso ou a razão (…)” 4, carece do maior rigor e atenção, exigindo, a montante de respostas, interrogações que suportem, acreditem, as conclusões, as decisões.

O que é a escola? O que é a Escola? O que é uma escola?

“Igualmente se testemunha que a diversidade das nossas opiniões não vem de uns serem mais razoáveis do que outros, mas só de conduzirmos os nossos pensamentos por diferentes caminhos e de não considerarmos as mesmas coisas” 5.

Jorge Manuel Ventura

Professor

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1,2,3,4,5 Descartes, Discurso do Método

Observação: O texto que, acima, partilhei, reflete uma imagem bonita da matemática.

Reflete uma anedota que se conta e traduz o rigor da matemática:

  • Numa viagem pela Inglaterra, viajavam um astrónomo, um engenheiro e um matemático. Ao olhar pela janela, o astrónomo observa com admiração uma ovelha negra que corre pelos campos. Diz aos seus colegas: – que curioso, na Inglaterra todas as ovelhas são negras. O Engenheiro, delicadamente, corrige-o: – Não, não. Na verdade algumas ovelhas são negras. O matemático corrige-os, com autoridade: – na Inglaterra, existe pelo menos um campo, que contém pelo menos uma ovelha, a qual tem pelo menos um dos lados de cor negra.

Nota: No próximo texto, que partilho, em simultâneo, também se lê a beleza da simetria.