ACONTECE A SUDOESTE

Seduzidos, zarpamos, rumo ao Sul, à boleia das correntes, calmas, de agosto, que acompanham a maré, cheia, que os “baixios” – do Norte, não conseguiram alterar.

Conquistados, entregamo-nos aos abraços, temperados, das águas, amenas, do mar, salgado, atrevido, ousado, que nos convida a “despir”, a deitar e a fruir, das carícias do sol, escaldante, que nos marca, massaja e denuncia, em flagrante, a relação, tórrida, que não podemos negar.

De julho, levamos os ventos, do Norte, que reescreveram, lembraram, e nos convidaram, outra vez, a olhar para o mar, que nos abraça, limita, contagia e acompanha, na procura de bens, riqueza e “grandeza”, de Ceuta ao Ultramar.

Distraídos, corremos riscos, sérios, de confundir – conjuntura, estrutura, orientação, objetivos e, estratégia de navegação, que mesmo os textos, bonitos – “Ó mar salgado…”, não conseguirão contrariar, interrompendo a tendência, recorrente, da arte de naufragar.

Olhamos para Norte, invocando solidariedade, integração, sentido de estado, e de união, que a conjuntura – de crise, pandémica, social e económica, aconselha a federar.

É tempo de Verão, de descanso e distração, em que importa atentar, na Europa, na recuperação e no estado, da nação, sem esquecer que somos nós, só nós, que teremos de garantir que Portugal, atlântico, nobre, comprometido e, pobre, poderá outorgar, no futuro, maior coesão, igualdade, equidade, prosperidade e razão, sem naufrágios, estruturais – recorrentes, que nos expõem à ajuda, socorro, das marés, do Norte, que a mancha – Canal da Mancha, no futuro, poderá não aproximar.

Jorge Manuel Ventura

Professor


Observação 1: Perceber, num tempo de urgência – emergência, que não conseguimos, sequer, concertar a, estruturante, sustentabilidade do SNS, com a necessária abertura de, mais, vagas para o Curso de Medicina, com as implicações que daí decorreriam – perturba.

Nota: percebo a legitimidade de quem não outorga a medida; percebo as implicações e os constrangimentos da formação, graduada e pós-graduada; percebo a inexistência de correlação, forte, da medida, com a sustentabilidade do SNS; mas percebo, concomitantemente, que mudar, estruturalmente, precisa de medidas, simples, intencionadas e concretas – como esta.

Observação 2: desconheço o futuro, designadamente, o que acontecerá, após as eleições norte-americanas, mas ouvimos, em 2017, a chanceler Angela Merkel, declarar:

“O tempo em que podíamos contar, totalmente, uns com os outros, acabou, em certa medida. Verifiquei isso nos últimos dias. E é por isso que só posso dizer que nós, europeus, temos de agarrar as rédeas do nosso próprio destino.”

Kishore Mahbubani, A queda do Ocidente? Uma provocação

Naveguemos para Sul, mas não percamos o Norte…

JMV

Memória

Discreta, chegaste sem avisar, escondida por detrás do primeiro toque, o primeiro som, o primeiro cheiro e, mais tarde, o primeiro olhar.

Acompanhas-me, proteges-me, vigias-me, os medos, as leituras, as conversas, os caminhos, para onde o “sopro” que “anima” a vida, parece querer-me levar.

Crescemos juntos, aprendemos juntos, numa cumplicidade que nos une, nos identifica, singulariza, e não podemos quebrar.

És tu, discreta, escondida, que me permites caminhar, aprender, reconhecer, questionar e poder responder. És tu, discreta, que me permites viver, criar – ser. Que me permites “ver”, ousar, predizer, viajar ao futuro e regressar.

És tu, discreta, que não me permites enganar, desorientar, caminhar sem destino, perdido, sem me conseguir encontrar.

És tu, escondida, que não me podes faltar – guardas os meus segredos, o meu passado, a minha identidade; tudo – o que sei, o que amo, e amei, o que sou, fui, e, contigo, só contigo, poderei, “animado” pelo “sopro” que me inspira – a vida, ousar a aventura da conquista do traduzido pela, intangível, expressão, serei.

És tu, de quem, por último, me despedirei, quando não for mais do que uma ruína, o resto – de nós, sem futuro, estrutura, identidade, conhecimento e vaidade.

És tu, que mereces saber, que és quem me inspira – a ser.

Jorge Manuel Ventura

Professor

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“ Com as mesmas regras que constrangem um principiante, o jogador de xadrez mais veterano desenvolve estratégias que parecem incríveis ao primeiro.

No entanto, qualquer pessoa pode aprender xadrez, e a única maneira de aprender é jogando.

Na verdade, jogar é muito mais do que mover as peças de acordo com as regras. Quando se joga, cria-se.”

Miquel Albertí, A criatividade Matemática


“ E tu és a música, mas só enquanto a música dura”.

António Damásio, O Sentimento de Si

Momentos

Convidaram-me a olhar, a ver – a pensar; que há diferença, diferenças – outras formas de conjugar o verbo – aceitar.

Aceitei o convite; pedi desculpa e tentei justificar – porque não percebo a linguagem que a imagem quer comunicar.

  • A forma? – A cor? – A Cultura?

Olhei – vi a cor, as cores, até onde a visão me permite penetrar; li os discursos, os costumes, os conceitos, até onde a aparência consegue enunciar.

Reparei – atentei na diferença que as diversas formas e culturas conseguem expressar. Não vi – diferentes, nem necessidade de aceitar, tolerar.

Há momentos que nos convidam a parar, a ver, a olhar, a reparar e a pensar – o quão importante é viajar, pela imagem, pela mensagem, para poder regressar, ao passado, onde aprendemos a conjugar o que é – fraternizar.

Há momentos que nos ensinam que todos, mesmo os melhores, podem errar – que o erro acontece e, só esse, se deve sujeitar ao escrutínio do verbo tolerar.

A forma, a cor, a Cultura, ou o modo de exteriorizar, pela aparência, os costumes ou, a genética familiar, não estão sujeitos ao juízo que a gramática outorgou à redação do enunciado da aceitação.

Há momentos que nos mostram o erro que a Revolução Francesa não conseguiu colmatar; que a Declaração Universal dos Direitos do Humanos não conseguiu sufragar.

Há momentos em que importa pensar.

Há momentos em que importa tolerar.

Jorge Manuel Ventura

Professor


Observação 1: Não ignorando poder estar equivocado, não ignoro, concomitantemente, que equívocos como os que as fotografias podem traduzir, poderão legitimar tantos erros que continuamos a perpetrar. Que possam conferir, contemporaneidade, a expressões como a que, abaixo, deixo, para revisitar.

Observação 2: No passado, diferentes culturas desenvolveram diferentes sistemas de contagem, utilizando, repetidamente, partes do corpo, a que se chama «contagem anatómica». Mais tarde, evoluímos, pela mão de Georg Cantor, matemático alemão, que abordou o problema do infinito e mostrou como continuar a contar, quando os números se esgotam.

“Mudadas, assim, as condições da cidade, em lado algum restava vestígio do antigo e íntegro costume; finda a igualdade entre os cidadãos, todos aguardavam as ordens do Príncipe sem nada temerem, já que Augusto, no vigor da idade, mantinha o estatuto, a casa e a paz”

Tácito – Século II

AMAR EM TEMPO DE MEDO

Caminho, sobre as labaredas que não me deixam abrandar, assustado, pelo zumbido, forte, de um ciclone, que me persegue, e não me permite sossegar.

É um tsunami, de adrenalina, que jorra, em correntes, fortes, que correm, fugindo, agitadas, do estrondo do trovão, que ensurdece, a cada bater do coração.

É a explosão, violenta, ruidosa, do invólucro da razão, que se fragmenta, expande, e me faz corar, transpirar, e sentir a confusão.

Confuso, caminho, sozinho, agitado, tomado pela emoção, que se aproxima, indiscreta, coreografando, sobre as brasas, o crepitar da combustão.

É o susto, o salto, o imprevisto, o quebrar da bússola e a desorientação.

É o tempo, que me foge, que se esconde, me oculta o caminho e ameaça com a evasão.

É o tempo, sempre o tempo, que me parece assustar.

É o tempo, também o tempo, que eu quero conquistar.

É o medo, de não ter tempo, para inventar novas formas de amar.

Jorge Manuel Ventura

Professor


“ Antes do século xx, os cientistas tinham tomado como certo que espaço e tempo são coisas diferentes. Na verdade tempo e espaço, parecem ter caraterísticas muito diferentes: o tempo flui do passado para o futuro, enquanto o espaço parece estar «todo ali», de uma vez. Portanto, foi uma releitura radical da natureza a de Hermann Minkowski quando, na sua interpretação matemática da teoria da relatividade restrita de Einstein, prescindiu de «espaço» e «tempo» como entidades distintas e os substitui por uma única entidade: o espaço-tempo. Como afirmou, ousadamente, Minkowski: «Doravante, o espaço em si, e o tempo, em si, estão condenados a dissolver-se em meras sombras, e só uma espécie de união dos dois preservará uma realidade independente».”

Philip Goff, O erro de Galileu

“Ao sair de casa talvez tenhamos a sorte da passar pela praia e contemplar no mar a linha do horizonte, até onde a nossa vista alcança, nos confins da superfície do planeta. Quem alguma vez pensou em questões matemáticas enquanto contemplava o horizonte?”

Na sua obra Ciclos, o escritor Espanhol que se celebrizou com as iniciais F.M. vê no horizonte um bom lugar para situar a utopia:

“Para que serve a utopia? Ela está no horizonte. Se me aproximo dez passos, o horizonte afasta-se dez passos mais para lá. É para isso que ele me serve, para aprender a andar”.

A afirmação é correta, pois os passos são efetuados sobre uma esfera.

Miquel Albertí, A Criatividade em Matemática AMAR


Antagonismos

Escuto, quanto te olho, o silêncio das histórias que me contas, do tempo das saídas, partidas, entradas, chegadas.

Do tempo da cumplicidade, que guardas na tristeza do olhar, com que me espreitas, ao passar.

Manténs-te fiel, guardando, em segredo, as memórias do passado, agitado, onde, presente, te mantiveste ausente, protegendo, do olhar frio e indiscreto da noite, o calor da felicidade, ruidosa, que te angustia, quando recordas a dor que, desesperadamente, camuflaste, num exercício perturbador, onde a segurança que oferecias, deixava sem proteção, todas as vidas, perdidas, vencidas.

Escuto, quando te olho, a resignação e a culpa, pelos encontros que não soubeste guardar, pelos desencontros que não conseguiste evitar, pela dor, que te forçaram a camuflar.

Olhas-me, devagar, com a tristeza de quem, cansado, se entrega ao destino, traçado, pelas tábuas que te viram nascer e, agora, inútil, te anunciam, num discurso, grosseiro, rude, o ocaso que ameaça aparecer.

Tantas vidas, tantas histórias, tantas aventuras, entradas, desventuras – ousadas.

Tanto amor, tanta dor, tanto encontro, desencontro, barulho e odor.

Olhas-me, devagar, com a humildade e o silêncio com que me queres confessar, que tudo passa, tudo é fugaz, mas vale a pena viver, para sentir, escutar e ver, quem, como tu, soubeste ser, protetora, cúmplice, discreta, atenta, humilde e bela, mesmo quando te querem esconder.

Jorge Manuel Ventura

Professor

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“ Tigre, tigre, que flamejas pelas florestas noturnas, que mão, que olhos imortais ousaram moldar a tua temível simetria?

William Blake (1757 – 1827)

RANKINGS – Uma Sucessão de Equívocos

Uma Sucessão de Equívocos

Recorrentemente, somos confrontados com interrogações para as quais procuramos resposta, ou, alternativamente, respostas, que possam suportar – acreditar, as nossas experiências, vivências, emoções, impulsos, deduções, conclusões.

Na dúvida, não hesitamos em adotar a prudência, nas conclusões, e decisões.

“Não basta, de facto, ter o espírito bom: o principal é aplica-lo bem.”1

Recorrentemente, animados pela proximidade e familiaridade com as experiências – quotidianas, somos conduzidos por caminhos que nos precipitam em conclusões e decisões que que não suportámos, acreditámos, por meio de respostas a questões, interrogações.

“Todavia, pode acontecer que me engane e talvez não passe de um pouco de cobre e de vidro o que tomo por ouro ou diamantes”. 2

O que é a escola? O que é a Escola? O que é uma escola?

Recorrentemente, falamos de escola, de Escola e, da escola, sem atentarmos no que possam querer significar.

Recorrentemente, são-nos apresentados rankings – listas ordenadas, de onde decorrem deduções, conclusões e decisões, sobre as “melhores”, as “piores”, as “razões”, as “condições” e, peço desculpa pelo abuso e inadequação, as ilusões.

“Sei quão sujeitos estamos a iludir-nos naquilo que nos toca e como devemos suspeitar dos juízos dos amigos quando a nosso favor.” 3

Em 27 de junho, último, após a divulgação dos Rankings 2019, li, ouvi e vi, títulos, textos, intervenções, entrevistas, onde se identificavam as “melhores”, as “piores”, e se perguntava a razão, as razões, enunciando-se deduções e inspirando decisões.

Questões legítimas, que nos parecem oportunas, mas que nos traem nas respostas.

“ Testemunha-se, antes, que a faculdade de bem julgar e distinguir o verdadeiro e o falso – propriamente o que se chama de bom senso ou a razão (…)” 4, carece do maior rigor e atenção, exigindo, a montante de respostas, interrogações que suportem, acreditem, as conclusões, as decisões.

O que é a escola? O que é a Escola? O que é uma escola?

“Igualmente se testemunha que a diversidade das nossas opiniões não vem de uns serem mais razoáveis do que outros, mas só de conduzirmos os nossos pensamentos por diferentes caminhos e de não considerarmos as mesmas coisas” 5.

Jorge Manuel Ventura

Professor

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1,2,3,4,5 Descartes, Discurso do Método

Observação: O texto que, acima, partilhei, reflete uma imagem bonita da matemática.

Reflete uma anedota que se conta e traduz o rigor da matemática:

  • Numa viagem pela Inglaterra, viajavam um astrónomo, um engenheiro e um matemático. Ao olhar pela janela, o astrónomo observa com admiração uma ovelha negra que corre pelos campos. Diz aos seus colegas: – que curioso, na Inglaterra todas as ovelhas são negras. O Engenheiro, delicadamente, corrige-o: – Não, não. Na verdade algumas ovelhas são negras. O matemático corrige-os, com autoridade: – na Inglaterra, existe pelo menos um campo, que contém pelo menos uma ovelha, a qual tem pelo menos um dos lados de cor negra.

Nota: No próximo texto, que partilho, em simultâneo, também se lê a beleza da simetria.

Rankings

Uma Sucessão 100 Razão

Nota prévia: O texto que, abaixo, partilho, reflete uma imagem, feia, da matemática.

Reflete, igualmente, porquanto invoca, sem nomear, o concreto, uma imagem, feia, da ética, tomada numa perspetiva exigente.

Permitam-me, assim, que, antecipadamente, peça desculpa.

Sucedem-se, ano após ano, numa Progressão, Aritmética, as contas, as Médias, as tabelas e, as listas.

No Termo seguinte, identificam-se, sempre – os textos, as notas, as opiniões, as contradições e, as entrevistas.

São as melhores, as piores, os contextos, as habilitações, as teses, as conclusões, os Teoremas e, as Razões.

São as Médias, os Binómios, os Rankings e, as ilusões.

Estão na Moda, são transparentes, efetivos, verdadeiros e, não permitem confusões.

Atento, li a matriz, escutei as conversas, as alusões – são os Professores; os projetos; o compromisso; a excelência; os fotógrafos e, as classificações.

Fui ver. Sequenciei o ADN, estudei a Biologia – 9,75; fossilizada, com a Geologia, e questionei: E os Professores? E os projetos? E o compromisso?

Continuei, descendo, na escada de sequenciação, até ao 9.º ano, tendo atingido a 49(…).ª posição da Série da cadeia, de avaliação.

Voltei a questionar. E os Professores? (…).

Não. Para este teorema, não conheço demonstração.

Sucedem-se, ano após ano, as apresentações, dos Rankings, dos resultados, dos estudos, dos contextos, das opiniões, das contradições – numa repetição, legítima, que merece, a contribuição, humilde, das diferentes reflexões.

Estude-se o caso, olhe-se, a fundo, demonstre-se o Teorema, corrijam-se as “narrações”, mitiguem-se as ilusões, cumpram-se as obrigações.

Jorge Manuel Ventura

Professor


Observação 1: quando se olha, se repara, no Ranking, não se pode deixar de olhar, reparar, na comunidade. Quando se olha, se repara, no Ranking, não se pode deixar de olhar, reparar, na órbita, nas influências, nas forças que determinam os percursos.

Quando se olha, se repara, no Ranking, não se pode deixar de olhar para o Universo.

Nota: O texto, acima, poderia ter como título: uma Sucessão de equívocos.

Observação 2: Aconselho a leitura do texto, de opinião, que partilharei, subsequentemente, que permitirá ler, o presente, de modo integrado.

“ Entre todos os contratos pelos quais uma multidão de homens se religa numa sociedade (pactum sociale),o contrato que entre eles estabelece uma constituição civil (pactum unionis civilis) é de uma espécie tão peculiar que, embora tenha muito em comum, quanto à execução, com todos os outros (que visam a obtenção em comum de qualquer outro fim), se/distingue, no entanto, essencialmente de todos os outros no princípio da sua instituição (constitutionis civilis). A união de muitos homens em vista a um fim (comum) qualquer (que todos têm), encontra-se em todos os contratos de sociedade; mas a união dos mesmos homens que em si mesmos é um fim (que cada qual deve ter), por conseguinte, a união em toda a relação exterior dos homens em geral, que não podem deixar de se enredar em influência recíproca, é um dever incondicionado e primordial: uma tal união só pode encontrar-se numa sociedade enquanto ela radica num estado civil, isto é, constitui uma comunidade (Gemein Wese).

Immanuel Kant, A Paz Perpétua e Outros Opúsculos

A Voz do Silêncio

Caminho, de mão dada com a brisa, que derruba a Primavera, numa coreografia de sombras, que me expõe a luz, intensa, próxima, íntima, do Verão que se aproxima, atraído pela beleza e luminosidade, da Terra, que se inclina e me convida, com a voz do silêncio, a percorrer os trilhos, envergonhados, da simplicidade dos tons, escarlate, da humildade.

Rendido, percorro o tapete, estendido, da liberdade, que me conduz pelos recantos, elegantes, decorados pela simplicidade da paz, recatada, dos ambientes, amenos, da natureza discreta, esquecida, desprezada, perdida.

Escuto, na voz do silêncio, a declaração, tímida, da papoila, vaidosa, que emerge, solitária, de um jardim de cascas, pinhas e, ervas, que testemunham o embaraço, rosado, da surpresa, e beleza, da natureza, discreta, esquecida, desprezada, perdida.

Caminho, na companhia da brisa, amena, que me mostra, na pobreza, toda a beleza, da natureza.

Jorge Manuel Ventura

Professor

“Por detrás das Nuvens”


Em 11 de junho de 2020, partilhei, neste espaço, os “traços de personalidade” da “plataforma” que nos lançará numa “viagem” aos territórios, inacessíveis, da verdade absoluta, num exercício, dualista, da expressão da ausência.

Oportunamente, neste mesmo espaço, apresentarei o itinerário na expectativa de que, preparada a bagagem, possamos, na “ausência de gravidade”, viajar, por detrás das nuvens.

Jorge Manuel Ventura

Professor

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Observação: Consciente das, enormes, limitações, enquanto tripulante, peço, antecipada e, humildemente, desculpa pela, eventual, turbulência.

VIDA

Capítulo 4

Procuro, no Baú da memória, suportada em imagens e histórias, reconstruir o momento em que, resgatado, pelas mãos, fortes e ensanguentadas, do “Adamastor” da foz, desaguei neste oceano de ventos de afeto e correntes de emoção.

Dobrado o Cabo, experimentei a aventura do mergulho, profundo, nas águas agitadas do crescimento, iluminadas pelos raios, de luz, da aprendizagem, submetido à pressão da “pressa” e à ilusão da imagem.

Fascinei-me com a beleza, intensa, da natureza submersa, adornada por corredores de luz, de cor, de vida.

Confiei no efeito, tranquilizador, das águas temperadas e, calmas, da sensatez, do equilíbrio, do amor, que nos suportam, pela força do afeto, iodado, da razão, compromisso, educação.

Explorei ruas, avenidas, cidades e vilas, desfiladeiros de vida, de luz, de escuridão, agressividade e traição, palcos de paixão, de construção – de destroços, que sinalizam naufrágios, convertidos em puérperas paisagens, fontes de vida, silvestre, opulenta, que emerge da construção e arte, desenhadas na passagem.

É o tempo, a aventura e a vida, a ambição, a conquista, a limitação, a regularidade dos dias, vencidos, pelo aproximar da noite, submetidos à inexorável condição que lhe esboça a orientação, da translação, rotativa, repetida, submetida ao sentido, único, das correntes de emoção, “alimentadas” pelo “sopro” da, incontornável, razão, de viver a aventura da beleza, do mergulho, do vislumbre do trecentésimo sexagésimo grau, de cada oxigenação.

Jorge Manuel Ventura

Professor


Observação: o capítulo 4, Vida, ocupa o quarto quadrante da construção, metafórica, do sentido, do tempo, das fronteiras, da vida.

Define a circunferência que nos baliza o quotidiano.

“ O conhecimento a que a geometria aspira é o conhecimento do eterno.”

Platão, A República

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Imagem: pintura de Salvador Dali

SENTIDO(S)

Capítulo 3

Atento, olho a vírgula, o ponto, o espelho.

Reparo, leio as pregas, os vincos, a expressão e a córnea – que me traz a luz e protege a retina, que me mostra o mundo, os corpos, os objetos, as cores, os sorrisos, as lágrimas, as emoções, a felicidade.

Percebo o tempo, as células e a velocidade – da luz, do pensamento, do “ruído” da verdade.

É a imagem, a natureza, a vida, a emoção, a razão – do sentido, da viagem.

Disfarço as rugas, abraço a fragrância, conjugo a(s) cor(es), a(s) textura(s), o “tempo”, os espaços, que reservam estímulos, arquitetam emoções, dão sentido às relações.

Atento, olho a vírgula, o ponto, o espelho.

Reparo, em mim, observo – leio, o outro, os outros, procuro a razão, a verdade, a justiça, a felicidade.

Consciente, aventuro-me no palco da relatividade do espaço-tempo, que me desnuda, absoluta e inelutavelmente, perante a atração dos estímulos, tão fortes como a força gravitacional que atrai «as maçãs de Newton» e, «a Lua, de Einstein».

Atento – observo, sinto, penso, decido, vivo.

Atento, olho a calçada, o passeio, enrugado, pela expressão dos anéis, alimentados pelos raios, de luz, que atraem, da opacidade subterrânea, as raízes, fortes, que arquitetam avenidas, cumprimentam a primavera, e nos “inspiram” – a viver.

Jorge Manuel Ventura

Professor

“Toda a arte e toda a investigação, e similarmente, toda ação e escolha, parecem prosseguir um qualquer bem; de acordo com isto, declarou-se, corretamente, que o bem é aquilo que por que tudo anseia.”

Ética a Nicómaco – 1094 a 1

O TEMPO

Capítulo 2

Olhei as horas, percebi o tempo, o momento, do dia, que se curvava, amena e humildemente, deslumbrado, fascinado, com o aproximar da noite, discreta e elegante, que nos convida ao regresso e nos estimula à viagem, pela história, memória, do dia, que a notícia desperta e, o silêncio – ruidoso, aproxima.

Saí, percorri o vazio, transpus a fronteira, regressei.

Viajei, pelo dia, pela notícia, pela memória, pela História, recente, onde, a cada ocaso, definido, calendarizado, transitório, sucede um – novo, (re)começo, definido, calendarizado, transitório, que parcela o tempo, o nosso tempo, contado – medido, em horas, dias, meses, anos, histórias, memórias.

Amanhã acontecerá um novo dia, que se submeterá à noite, à notícia, à História, às histórias. Previsível, manter-se-á incerto; misterioso, manter-se-á fascinante; conquistado, revelar-se-á comum.

Confundir-se-á com o tempo, o nosso tempo – esgotado, vivido, passado.

Amanhã acontecerá um novo dia, viver-se-á o futuro, fiel ao passado, ao experimentado, à expansão, à retração, à verdade, à ilusão, à promessa e à convicção.

Amanhã acontecerá o futuro, que se confundirá com o passado.

Hoje, percebi o tempo, a ilusão, o fascínio do novo e, a inevitabilidade, da repetição.

Amanhã, a noite, discreta e elegante, sucederá, de novo, ao dia.

Jorge Manuel Ventura

Professor

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Observação: Recorrentemente, somos confrontados com a inevitabilidade do que, invariavelmente, assumimos por – austeridade. Invariavelmente, a mesma quer significar cortes, congelamentos, impostos, certificados…

Nota: poder-se-ão descobrir novas fronteiras?

“ A cultura como um todo, nas suas várias manifestações, subsiste pela tradição.

A tradição é o esquecimento das origens.”

Edmund Husserl, The Origin of Geometry

NÓS

Capítulo 1

Isolados – em nós

Sentado, olho a televisão, elegante e disponível, que procura, habilidosamente, captar a minha atenção, vinculando-me, acorrentando-me ao sofá, onde, seduzido, me deixo levar pelas suas palavras, pelas suas histórias, pelos seus caminhos.

Hoje, decidi fugir, olhei a porta, fechada, atenta, que parecia olhar-me, fixamente, com a autoridade de quem está na posse de um mandado judicial. Preparei-me, despi-me, de mim, e saí.

A porta continuou a olhar-me, fixamente, convencida de que ali permanecia.

Parti sem bagagem, sem destino, sem identidade. Procurei novas latitudes, experiências, conhecimentos, realidades. Movido pelo poder prodigioso do infinito, viajei depressa, como uma onda, que se propaga até aos limites da matéria.

Regressei mais tarde, vestindo o fato que, feito à medida, me define as formas, as expressões, a imagem, que se reflete no espelho e confunde a porta.

Regressei despido, sem roupagens de novos elementos, formas, espaços, massa ou matéria.

Na consciência, de mim, vislumbrei o outro, os outros, o vazio e o todo.

Percebi que os monstros, os disformes e os alienígenas vivem, sequestrados, na nossa consciência, submetidos às fronteiras da nossa imaginação.

Hoje, tentei, sem remorso, abandonar-me – partir à descoberta, do novo, do desconhecido, da matéria, dos elementos.

Hoje, percebi, sem surpresa, que não existem novas cores, novas formas, novos elementos. Não existe, água, que não possa assumir o estado líquido; não existe luz, para além da sensibilidade do olho, humano; não existem outros, para além de nós.

Jorge Manuel Ventura

Professor

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Observação: Recorrentemente, somos confrontados com a inevitabilidade do que, invariavelmente, assumimos por – austeridade. Invariavelmente, a mesma quer significar cortes, congelamentos, impostos, certificados…

Nota: poder-se-ão descobrir novas fronteiras?

“ Aquilo que é regular, ordenado, factual, nunca basta para abranger toda a verdade: a vida extravasa sempre a borda de qualquer taça.”

Boris Pasternak, 1890 – 1960

ENSAIO COVID 19 | N.º 12

AURORA

Terminamos, hoje, a contagem, lenta, dos dias de emergência; iniciamos, amanhã, a contagem, ponderada, dos dias de calamidade.

Vivemos dias incomuns; experimentamos o medo, a incerteza, a notícia – repetida, submetida, confinada – que nos trouxe as ruas, as palmas, as telas e as salas, de onde redescobrimos as praças, os vizinhos, os sons e os passarinhos, num refúgio, sanitário, que nos mostrou aviões, estacionados; navios, amarrados; hospitais, sobrelotados; e nos aproximou, o mundo, acorrentado ao medo, à incerteza, e à notícia – repetida, submetida.

Amanhã, iniciamos a viagem de regresso ao aconchego dos dias que a memória guardou e, aludidos, nos devolvem a esperança de que, o comum, “tudo vai ficar bem”, possa traduzir, o desejado, “tudo vai ficar igual”.

Hoje, terminamos a contagem dos dias de emergência; amanhã, começamos a fazer, as contas, a que a “calamidade”, num enunciado, confuso, impreciso, desestruturado e, inaudito, nos apresentou.

Na viagem que, hoje, terminamos, com escala em doze ensaios e, uma opinião, “fotografámos / fotografamos” a nossa condição, biológica; a nossa dimensão, social, económica, política; a nossa predisposição, solidária; e a nossa acuidade, crítica.

Amanhã, iniciamos uma nova viagem, que nos levará a olhar, para nós, para os outros, para as instituições, para Portugal, para as nações, para a solidariedade e as gerações.

Amanhã, iniciamos uma nova viagem, autorizada, que nos levará à descoberta de novas latitudes, conhecidas, reconhecidas, exploradas, inexploradas, mas sempre, estou convicto, projetadas, numa imagem, passível de correções, aprovações, reprovações e, opiniões.

Bem-vindos a bordo.

Muito obrigado.

Jorge Manuel ventura