Memória

Discreta, chegaste sem avisar, escondida por detrás do primeiro toque, o primeiro som, o primeiro cheiro e, mais tarde, o primeiro olhar.

Acompanhas-me, proteges-me, vigias-me, os medos, as leituras, as conversas, os caminhos, para onde o “sopro” que “anima” a vida, parece querer-me levar.

Crescemos juntos, aprendemos juntos, numa cumplicidade que nos une, nos identifica, singulariza, e não podemos quebrar.

És tu, discreta, escondida, que me permites caminhar, aprender, reconhecer, questionar e poder responder. És tu, discreta, que me permites viver, criar – ser. Que me permites “ver”, ousar, predizer, viajar ao futuro e regressar.

És tu, discreta, que não me permites enganar, desorientar, caminhar sem destino, perdido, sem me conseguir encontrar.

És tu, escondida, que não me podes faltar – guardas os meus segredos, o meu passado, a minha identidade; tudo – o que sei, o que amo, e amei, o que sou, fui, e, contigo, só contigo, poderei, “animado” pelo “sopro” que me inspira – a vida, ousar a aventura da conquista do traduzido pela, intangível, expressão, serei.

És tu, de quem, por último, me despedirei, quando não for mais do que uma ruína, o resto – de nós, sem futuro, estrutura, identidade, conhecimento e vaidade.

És tu, que mereces saber, que és quem me inspira – a ser.

Jorge Manuel Ventura

Professor

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“ Com as mesmas regras que constrangem um principiante, o jogador de xadrez mais veterano desenvolve estratégias que parecem incríveis ao primeiro.

No entanto, qualquer pessoa pode aprender xadrez, e a única maneira de aprender é jogando.

Na verdade, jogar é muito mais do que mover as peças de acordo com as regras. Quando se joga, cria-se.”

Miquel Albertí, A criatividade Matemática


“ E tu és a música, mas só enquanto a música dura”.

António Damásio, O Sentimento de Si

ENSAIO COVID 19 | N.º 06

MEMÓRIA

Atores, nesta peça que, hoje, a realidade encena, ocorre-nos evocar o passado e todos os episódios e ensinamentos que, dele, pudemos colher.
A peça, sob o título, Pandemia, invoca a guerra e reduz-nos ao papel de beligerantes, num roteiro em que o(s) diretor(es) procura(m), num exercício comprometido e complexo, alterar o texto, de um teatro de máscaras onde os heróis são os médicos, os enfermeiros, os administrativos, os auxiliares e, agora, também, entre tantos outros, os militares.
A crise, que o roteiro antecipa, evoca o passado, 2007, com os empréstimos subprime (EUA), e daí, dando visibilidade às disfuncionalidades dos sistemas e da sociedade, suportadas num contexto de descontrolo e desregulamentação, geraram a toxicidade que, em 2008, determinou falências, desemprego e intervenção do(s) estado(s), submetidos à profundidade e dimensão da emergência a que globalização conferiu natureza pandémica.
Alemanha, França, Espanha, Itália, Dinamarca, EUA, Portugal e, outros, veem-se, hoje, tal como ontem, submetidos à urgência que a emergência e, as falências, parecem poder determinar, intervêm na economia, injetando dinheiro, tomando posições acionistas e, até, nacionalizando.
Procuramos, com esperança, antecipar o futuro, tentando garantir a produção, o emprego, a operacionalidade das empresas e os rendimentos familiares.
Procuramos, com esperança, resgatar o passado, do crescimento, da mobilidade e da prosperidade.
A “guerra”, que a peça parece evocar, garantiu, quando terminada, enormes sobras de aviões de transporte que, convertidos, abriram novas rotas e puderam voar.
A peça, cujo termo não se consegue antecipar, parece querer deixar sobras que jamais poderão levantar.

Jorge Manuel Ventura
Professor