Antagonismos

Escuto, quanto te olho, o silêncio das histórias que me contas, do tempo das saídas, partidas, entradas, chegadas.

Do tempo da cumplicidade, que guardas na tristeza do olhar, com que me espreitas, ao passar.

Manténs-te fiel, guardando, em segredo, as memórias do passado, agitado, onde, presente, te mantiveste ausente, protegendo, do olhar frio e indiscreto da noite, o calor da felicidade, ruidosa, que te angustia, quando recordas a dor que, desesperadamente, camuflaste, num exercício perturbador, onde a segurança que oferecias, deixava sem proteção, todas as vidas, perdidas, vencidas.

Escuto, quando te olho, a resignação e a culpa, pelos encontros que não soubeste guardar, pelos desencontros que não conseguiste evitar, pela dor, que te forçaram a camuflar.

Olhas-me, devagar, com a tristeza de quem, cansado, se entrega ao destino, traçado, pelas tábuas que te viram nascer e, agora, inútil, te anunciam, num discurso, grosseiro, rude, o ocaso que ameaça aparecer.

Tantas vidas, tantas histórias, tantas aventuras, entradas, desventuras – ousadas.

Tanto amor, tanta dor, tanto encontro, desencontro, barulho e odor.

Olhas-me, devagar, com a humildade e o silêncio com que me queres confessar, que tudo passa, tudo é fugaz, mas vale a pena viver, para sentir, escutar e ver, quem, como tu, soubeste ser, protetora, cúmplice, discreta, atenta, humilde e bela, mesmo quando te querem esconder.

Jorge Manuel Ventura

Professor

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“ Tigre, tigre, que flamejas pelas florestas noturnas, que mão, que olhos imortais ousaram moldar a tua temível simetria?

William Blake (1757 – 1827)

RANKINGS – Uma Sucessão de Equívocos

Uma Sucessão de Equívocos

Recorrentemente, somos confrontados com interrogações para as quais procuramos resposta, ou, alternativamente, respostas, que possam suportar – acreditar, as nossas experiências, vivências, emoções, impulsos, deduções, conclusões.

Na dúvida, não hesitamos em adotar a prudência, nas conclusões, e decisões.

“Não basta, de facto, ter o espírito bom: o principal é aplica-lo bem.”1

Recorrentemente, animados pela proximidade e familiaridade com as experiências – quotidianas, somos conduzidos por caminhos que nos precipitam em conclusões e decisões que que não suportámos, acreditámos, por meio de respostas a questões, interrogações.

“Todavia, pode acontecer que me engane e talvez não passe de um pouco de cobre e de vidro o que tomo por ouro ou diamantes”. 2

O que é a escola? O que é a Escola? O que é uma escola?

Recorrentemente, falamos de escola, de Escola e, da escola, sem atentarmos no que possam querer significar.

Recorrentemente, são-nos apresentados rankings – listas ordenadas, de onde decorrem deduções, conclusões e decisões, sobre as “melhores”, as “piores”, as “razões”, as “condições” e, peço desculpa pelo abuso e inadequação, as ilusões.

“Sei quão sujeitos estamos a iludir-nos naquilo que nos toca e como devemos suspeitar dos juízos dos amigos quando a nosso favor.” 3

Em 27 de junho, último, após a divulgação dos Rankings 2019, li, ouvi e vi, títulos, textos, intervenções, entrevistas, onde se identificavam as “melhores”, as “piores”, e se perguntava a razão, as razões, enunciando-se deduções e inspirando decisões.

Questões legítimas, que nos parecem oportunas, mas que nos traem nas respostas.

“ Testemunha-se, antes, que a faculdade de bem julgar e distinguir o verdadeiro e o falso – propriamente o que se chama de bom senso ou a razão (…)” 4, carece do maior rigor e atenção, exigindo, a montante de respostas, interrogações que suportem, acreditem, as conclusões, as decisões.

O que é a escola? O que é a Escola? O que é uma escola?

“Igualmente se testemunha que a diversidade das nossas opiniões não vem de uns serem mais razoáveis do que outros, mas só de conduzirmos os nossos pensamentos por diferentes caminhos e de não considerarmos as mesmas coisas” 5.

Jorge Manuel Ventura

Professor

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1,2,3,4,5 Descartes, Discurso do Método

Observação: O texto que, acima, partilhei, reflete uma imagem bonita da matemática.

Reflete uma anedota que se conta e traduz o rigor da matemática:

  • Numa viagem pela Inglaterra, viajavam um astrónomo, um engenheiro e um matemático. Ao olhar pela janela, o astrónomo observa com admiração uma ovelha negra que corre pelos campos. Diz aos seus colegas: – que curioso, na Inglaterra todas as ovelhas são negras. O Engenheiro, delicadamente, corrige-o: – Não, não. Na verdade algumas ovelhas são negras. O matemático corrige-os, com autoridade: – na Inglaterra, existe pelo menos um campo, que contém pelo menos uma ovelha, a qual tem pelo menos um dos lados de cor negra.

Nota: No próximo texto, que partilho, em simultâneo, também se lê a beleza da simetria.