PÁGINA DO AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DE ESTARREJA NO DIÁRIO DE AVEIRO – 01 JUNHO

𝘋𝘪𝘢́𝘳𝘪𝘰 𝘥𝘦 𝘈𝘷𝘦𝘪𝘳𝘰 – 𝘗𝘢́𝘨𝘪𝘯𝘢 𝘥𝘦𝘥𝘪𝘤𝘢𝘥𝘢 𝘢𝘰 𝘈𝘨𝘳𝘶𝘱𝘢𝘮𝘦𝘯𝘵𝘰 𝘥𝘦 𝘌𝘴𝘤𝘰𝘭𝘢𝘴 𝘥𝘦 𝘌𝘴𝘵𝘢𝘳𝘳𝘦𝘫𝘢
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Página do Agrupamento de Escolas de Estarreja no Diário de Aveiro – 03 janeiro

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INCÓGNITO (3)

(Ep. 3)

Levámos cadernos, lápis de cor, uma manta – velha, de trapos, tecida no tear, e fomos, para junto da árvore, daquela árvore, para onde, sempre, queria voltar. Hoje, hoje vamos aprender, dizia com um brilho nos olhos, que só o Sol, luminoso e forte, parecia ofuscar. Vamos desenhar, o Sol, as folhas, a sombra, que naquele dia, de verão, quente, se esboçava no chão, denunciando o namoro, discreto, que o Sol e a árvore, aquela árvore, naquele dia, pareciam encetar.

Ouvi, escutei a explicação e olhei – para a sombra, que, devagar, parecia folhear o livro que, ali, dizia guardar.

Hoje, hoje vamos desenhar, e com o desenho aprender a ver, a olhar, a perceber, o que significa crescer, viver, para ser – livre e poder viajar, como a sombra, que nos deixará, quando o Sol partir e, com ele, a levar.

Hoje, hoje vamos desenhar, e no desenho ler o que significa poder partir, viajar, crescer – livre, e poder regressar, àquele lugar, onde a árvore – aquela árvore, nos aguardará, sempre, sem nos questionar – sem nada exigir, estando disponível para nos mostrar o que é a liberdade – para poder pensar.

O Sol, radiante, brilhava no ar, sobre aquela árvore que, imóvel, me ensinou o quão importante é olhar, ver, pensar, reconhecer e valorizar quem nos aguarda, nos escuta, nos mostra que somos livres, que podemos partir e regressar.

Foi aqui, neste lugar, junto a esta árvore, com esta árvore, que percebi o seu gosto pela Botânica, pelos espelhos, pela oftalmologia, pelos outros, pela importância de ver, de olhar.

(Continua…)

Jorge Manuel Ventura
Professor

INCÓGNITO (2)

(Ep. 2)

Era atento, preocupado, peculiar no que, diligentemente, pretendia ensinar.

Naquele dia, agitado e azafamado, estávamos , todos, a preparar o regresso, desejado, de férias, prolongadas, a este lugar. Após o almoço, com sobremesa – era domingo, 28 de junho de 1981, levou-nos, tranquilamente a passear, pelas ruas, quentes, numa tarde solarenga de junho, até ao parque, onde se vendiam gelados – sorvetes; e, eu conhecia bem o sabor e a textura daqueles sorvetes – era a senhora, de avental com bolsos fundos, que eu conhecia do portão da escola, que vendia pastilhas – gorila, que cariavam os dentes aos menos cuidadosos e mais gulosos; e onde, num lago, de águas paradas, toldadas, se viam barcos – gaivotas, e patos.

Regressámos depois, como previsto, a este lugar, onde, sentado, no chão, me quis ensinar a ver, a sentir, a olhar.
Interrogou-me: o que viste no passeio de domingo, nas ruas, no parque, no passeio – calçada? O que aprendeste ao caminhar?

Vi patos, barcos – gaivotas, pessoas, carros, gelados.

Percebi, então, com a explicação, o que não vi; a razão do passeio, na tarde – de arrumação, agitada, ansiada, de preparação do regresso, imperativo, ao lugar que lhe fazia falta, e onde me pôde ensinar que, na cidade, caminhamos pelas ruas, parques, praças e avenidas, desenhadas, cuidadosamente, e vestidas – de árvores, arbustos, canteiros e bustos, que não vemos, não sentimos, não olhamos – não percebemos – a vida, que comungamos.

Foi aqui, neste lugar, junto a esta árvore, com esta árvore, que percebi o seu gosto pela Botânica, pelos espelhos, pela oftalmologia, pelos outros, pela importância de ver, de olhar.

(Continua…)

Jorge Manuel Ventura
Professor

INCÓGNITO (1)

(Ep. 1)

Chegámos tarde, já noite, condicionados pela chuva, intensa, constante, que parecia apostada em nos vigiar, e regressámos, era imperativo, uma necessidade que se manifestava no corpo, uma quase dor, que dizia não ultrapassar.

Regressava – regressava sempre a este lugar, dizia precisar fechar os olhos – para poder olhar, para poder ver, sentir, crer, viver.

Era o seu espaço, o seu tempo – para se olhar, confessava ter sido aqui que aprendeu a ser, a pensar, a reconhecer o sentido, a acreditar.

Dizia-me, recorrentemente, que foi aqui, neste lugar, junto a esta árvore, já velha, secular, que aprendeu a conversar, a olhar – nos olhos, a amar.

Acompanhava-o sempre, desde sempre, mesmo quando não sabia, ainda andar, trazia-me ao colo, ainda me lembro, dos primeiros passos e, mais tarde, das conversas, do caminhar.

Recordo, com saudade, a fé que me transmitia, o que me dizia – aprendi aqui, a ler Santo Agostinho, que citava, insistentemente, para concluir que a fé tem olhos próprios, que nos fazem ver, sentir, viver, crer.

Foi aqui, neste lugar, junto a esta árvore, com esta árvore, que percebi o seu gosto pela Botânica, pelos espelhos, pela oftalmologia, pelos outros, pela importância de ver, de olhar.

(Continua…)

Jorge Manuel Ventura
Professor


AMANHÃ

“Sem a matemática, não é possível chegar ao fundo da filosofia; sem a filosofia não se chega ao fundo da matemática; e sem as duas, não se chega ao fundo de nada.”
Jean- Charles de Borda ( 1733-1799)

A expressão – “já não temos começos”, que sinaliza o início de Gramáticas da Criação, de George Steiner, convida-nos a olhar o amanhã, iluminado pela luz – natural, do sol que submete as sombras, de que Platão nos parece querer libertar, na procura e interpretação do “infinito”, que a matemática nos convida a vislumbrar.
Sou, assim, persuadido a olhar o amanhã como integrante de um eixo – temporal, real, que nos leva a viajar – pelo passado, e a experimentar contar – o tempo, finito, que Platão – no Fédon, parece querer contrariar.
É o tempo, sempre o tempo, que me parece preocupar, o amanhã, o futuro – a flexão verbal e o conhecimento que desejo conquistar.
Regresso, hoje, já tarde, ao final do dia, quando a noite chega e o amanhã, imperturbável, se anuncia devagar, convidando-me, como na caverna – de Platão, a olhar as sombras do que, amanhã, parece traduzir o recomeçar, contrariando o que nos anuncia o eixo – temporal, real, que nos adiciona parcelas – histórias, memórias, tempo, ao qual não é possível regressar.
“Já não temos começos”.

Jorge Manuel Ventura
Professor

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“Diz-se que a diferença mais importante entre a ciência e a tecnologia é o facto da primeira mudar a nossa maneira de ver o mundo e a segunda a nossa maneira de o viver. Seguindo esta ordem de ideias, podemos afirmar que o relógio mecânico foi uma das invenções mais revolucionárias da história da humanidade, e das que mais influenciaram a vida quotidiana das pessoas.”

Enrique Gracián

AUSÊNCIA


Agora, quando o oeste esconde os raios, temperados, da luz que perdeu o norte, relembro, com estrondo, a noite, fria, procelosa, em que cedi à frustração, ao esquecimento, à solidão.
Relembro os tempos, radiosos, de verão, de expansionismo, de ilusão. Lembro os tempos, nublados, de contração, de resistência, de ruído, de frustração.
Presente, estive ausente, esquecido, negligenciado, ignorado.
Agora, quando o oeste esconde os raios, temperados, da luz que perdeu o norte, quando a noite, a crise e a frustração se aliam, se conjugam, numa conspiração, ausente – estou presente, omnipresente, e com poder de persuasão.
Agora, olham-me, procuram-me, no vazio da ausência; reparam nas linhas, disformes e persuasivas da cedência; percebem a relevância e a diligência da presença.
Ausente, estou presente, omnipresente, indisfarçável e proeminente.
Ausente, evoco, o passado; presente, aconselho o futuro; consciente, temo, o risco, do tempo dos raios, madrugadores, de leste; da luz, quente, dos dias de verão, de esquecimento, de negligência, de ilusão, de ausência.
Continua…


Jorge Manuel Ventura
Professor

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“Tão importante como fixar-se no essencial é prescindir do secundário”
Josef Loschmidt
“No mais obscuro horizonte, procuramos sinais que sejam levemente mais significativos do que os erros observacionais. A investigação continua.
O desejo é mais velho do que a história.
Não se satisfez e não será oprimido.
Edwin Powell Hubble

A Metamorfose do Sujeito

Acompanhei, em silêncio, o percurso da manhã, numa caminhada que me convidou a olhar – devagar, a tela que a brisa desenhou, quando, humilde, se ausentou.

Olhei, olhei-me no espelho – de água, que me mostrou, sob os raios – de luz, do sol que nos acompanhou, o esboço do que, hoje, estou.

Caminhei, devagar, de mão dada com a manhã, que me convidou a sentir – em silêncio, a paz que a mesma me deixou, quando, já tarde, me abandonou.

Olhei, olhei de novo, o texto que a paz enunciou.

Li, mais tarde, nas linhas, sombrias, que a ausência registou, a metamorfose do dia, dos dias, da vida e do que sou.

Acompanhei, em silêncio, o percurso da manhã, numa caminhada que me convidou a pensar – devagar, a subjetividade do olhar.

Recordo, agora, o que a manhã me mostrou – o esboço, a paz, a luz, o espelho, o silêncio, a humildade – cúmplice, do que nos aproximou – a água, metamórfica, que, hoje, testemunhou a relação, a caminhada, o namoro, o princípio, o fim – da manhã, tranquila, amena, solarenga, que me conquistou.

Jorge Manuel Ventura

Professor

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“ Temos de ter bem presente que, quando se trata de átomos, a linguagem só pode ser utilizada como em poesia. O poeta preocupa-se menos com a descrição dos factos do que com a criação de imagens e estabelecimento de conexões mentais”.

Niels Bohr, Prémio Nobel da Física – 1922

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Imagem: Metamorfose de Narciso – Salvador Dali

Porquê?


Interrogo-me, quando me interpelas, no calor da despedida – por que te olho? Por que te abandono? Por que te furto o sorriso, o olhar, a expressão?
(…)
Questiono-me, quando te olham, procurando ver-me – no silêncio, acético, de um grito de dor, de saudade, de amor; por que desisto? Por que te deixo? Por que te dispo?
(…)
Pergunto-me, porque me recordo do teu olhar tranquilo, com quem dialogava – por que o dizias? Por que o pedias? Por que não mentias?
(…)
Lembro-me, das longas conversas – íntimas, autênticas, moderadas – pela solidão da noite que espreitava a luz, rasgava as portadas e, mostrava as estrelas, o brilho, o olhar – expressivo, com que comunicavas, rias, choravas.
Porquê? Por que me trouxeste? Por que não fugiste? Por que não me traíste?


Jorge Manuel Ventura
Professor

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“Cada frase que pronuncio deve entender-se não como uma afirmação, mas como uma pergunta”.
Niels Bohr, Prémio Nobel da Física – 1922

“ A verdade e a clareza são complementares”.
Niels Bohr, Prémio Nobel da Física – 1922

“ O tempo passado é finito, o tempo futuro é infinito”.
Edwin Hubble, The Observational Approach to Cosmology (1937)

A ILHA

Tropeço, no grasnar de uma gaivota, e mergulho, num oceano de histórias, vivências, derrotas, vitórias.
Caio, em mim, e resgato, das profundezas do passado, os destroços do naufrágio dos dias, que vislumbro, no horizonte da maré.
Percebo, na vertigem dos abismos, a beleza das cores, da luz e, das flores – que inspiro, em átomos de oxigénio, e me elevam, aos limites da esperança, que desenho, na tela, azul, da liberdade do voo, e recordo, no espelho, de água, que me reflete, estrutura e, reconhece.
Tropeço, no grasnar de uma gaivota, e mergulho, no universo dos sonhos, histórias, vitórias.
Escuto, na voz do silêncio, a solidão da brisa, que me acompanha – no limites dos sentidos – à exploração do indizível; ao sentimento de mim – que me eleva, à condição de existir, neste oceano de cores, sons, luz e odores.


Jorge Manuel Ventura
Professor

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“É através da luz e através de uma ideia clara que a mente vê a essência das coisas, dos números e da extensão.
É através de uma ideia vaga ou através de um sentimento que a mente ajuíza sobre a existência das criaturas e se apercebe da sua própria existência.”

Nicholas Malebranche, De La Recherche de la Vérité (Paris, A. Pralard, 1678-1679) – tradução de A. Damásio, O Sentimento de Si

“Colombo converteu-se no protótipo dos descobridores. O seu “ sempre, sempre para Oeste” representa a sua perseverança, o seu
“terra, terra”, a alegria do êxito e, a sua aventura completa, a convicção de que a vida não é a maior possessão”.

Ludwig Boltzmann, A Viagem de um Catedrático Alemão ao Eldorado

OLHO-ME


Avanço, atraído pela, tangível, expressão da massa, coreografada pela sucessão de passos, que a expõem, numa encenação de sombras, num dia, solarengo – de outono, onde o paradoxo da desidratação se anuncia na beleza e “tonalidade” das folhas, que se precipitam, em trajetórias newtonianas, dando vida, numa sucessão de “acordes”, humildes, a cada avanço que intentas, na, retilínea, ilusão que a curvatura – do tempo, denuncia.
Percebo, sob a luz, quente, da carícia, aveludada, que te afaga o rosto, a (de)formação do corpo, que acompanha o avanço – do tempo, na relativização do espaço e subversão do absoluto.
Olho-te, surpreendido pela geometria e tangibilidade da escultura, que me denuncia, quando, presente, me exponho aos olhares, imprecisos, com que os sentidos me iludem, pela força que te define o percurso, incapaz de contrariar a atração da materialidade que me estrutura e (de)forma.
Olho-me, persuadido pela flexão da onda, que te orienta e suporta, com a inércia da deriva, que distorce as “linhas” e (re)define o referencial, da geometria da relatividade.
Caminho, lado a lado, com a matéria que me submete às leis que encenam os passos da equação da vida.
Avanço, pela equação da curva, curvatura do espaço – tempo, que me consome energia e, força, num bailado de corpos, a olhar o outro, os outros.
Olho-te.


Jorge Manuel Ventura
Professor

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Em 6 de outubro de 2020, foi atribuído o Prémio Nobel da Física a Roger Penrose, “para a descoberta de que a formação de buracos negros é uma predição robusta da teoria da Relatividade Geral”; e para Reinhard Genzel e Andrea Ghenz “ pela descoberta de um objeto compacto supermassivo no centro da nossa galáxia”.

Marta leite Ferreira, Observador, 06 out 2020

A VERDADE

Persuadido, persigo a luz, as luzes, que iluminam a mente, despertam a consciência e estimulam a curiosidade, o interesse, o “fascínio” pelo rosto – expressão, da verdade, da razão e da relação – de causalidade.

Por quê?

Submerso na natureza “ontológica” que me expõe à “violência”, irrevogável, do “pôr-do-sol”, que há-de testemunhar a decrepitude, física, que o cronómetro registará, no final da corrida, submeto-me à autoridade, irrefutável, da “Lógica”, numa dialética que me sujeita à “discussão”, à procura e, à observância da razão.

Procuro conhecer, compreender, saber: Por quê?

Ensaio exercícios de indagação, “investigação” – frustrados, despidos, triviais e inconclusivos.

Persuadido, persigo, aconselhado pelo – ambíguo, sentido – de orientação, da emoção, que me aproxima e, afasta, da razão, na subversão do método – científico, de aproximação à expressão que, conluiada com a “Lógica”, conduzirá à redação da – conclusão, que apelido, levianamente, de: proposição.

Persuadido, persigo, em cada “discussão”, a solução para o problema, irresoluto, que permitirá assumir o certo, o errado, o verdadeiro e, o provavelmente, desacreditado.

Por quê?

Jorge Manuel Ventura

Professor


“ A matemática efetua um firme avanço, ao passo que a filosofia continua a debater-se num espanto infinito perante os problemas que confrontou desde o início”.

Michael Dummett, The Philosophy of Mathematics

“ A esperança e o medo são ficções supremas que extraem a sua força da sintaxe. São tão inseparáveis uma da outra como da gramática. A esperança contém um medo de não-consumação.

O século XX lançou a dúvida sobre os grandes teólogos, filósofos e político-materiais da esperança. Põe em questão a razão de ser e a credibilidade dos tempos do futuro. Torna compreensíveis as palavras de Franz Kafka: «a esperança é abundante, mas não é para nós».

George Steiner, Gramáticas da Criação