ENSAIO COVID 19 | N.º 09

Forças Armadas

“Forças Armadas desinfetam, montam tendas e camas, transportam e dão alimentos.”

 Nuno Ribeiro, Público | 1.04.2020

A detonação das bombas, noticiosas, que nos estremecem os tímpanos e enternecem o coração, perante o ataque, sem escrúpulos, a alvos civis e expostos, do inimigo que nos invadiu o território e violou a soberania, provocando baixas, com vida, vidas, com história, memória, dos tempos que nos embalavam, em sonos tranquilos, e nos seguravam, a mão, numa caminhada protegida, segura, que nos defendia, protegia, do perigo e do medo, de tudo, da noite e do escuro, trouxe, à luz, do dia, dos dias, estranhos e vividos, protegidos, escondidos, as Forças Armadas e a sua ação e missão.

São dias de crise, de perigo, de atenção e preocupação, que nos educam, reeducam, num exercício de memória do tempo da obrigação, do recenseamento, que nos dizia e fazia, sentir, mancebos, pequenos, numa instituição pesada, gigante, fundamental e relevante, para a vida, proteção e nação.

A crise, global, que, hoje, indiscriminada e arbitrariamente, se abateu sobre nós, invoca o conflito e a ação, concertada e subordinada, a princípios, tratados e pactos, partilhados, assumidos e assinados, por todos, representados nas instituições, que nos representam, a nós e às nações.

Observação: os tempos que vivemos, de ajuda transnacional e intervenção Militar, trazem-nos à memória os tratados, internacionais, fundamentais e fundacionais, do que, hoje, somos, e, hoje, como ontem, somos estado, nação, bandeira, instituição e razão, em reconhecer, na instituição, Militar, um pouco de nós.

As Forças Armadas representam-nos, hoje, em território nacional e internacional – no âmbito da NATO, da ONU, ou fruto de necessidades e preocupações bilaterais ou multilaterais, evocando o Pacto Atlântico, assinado em Washington, curiosamente, em abril, de 1949, que nos aviva o princípio da solidariedade e da proteção, mútuas, podendo inferir-se do seu artigo 5.º, o que hoje vivemos e percebemos – um por todos, todos por um, à imagem do oportuno – cuide de si, cuide dos outros.

Nota: O Pacto Atlântico foi assinado, em Washington, em 4 de abril de 1949, pelos cinco países signatários do tratado de Bruxelas, os EUA, o Canadá, a Noruega, a Dinamarca, a Islândia, Portugal e Itália.  

Jorge Manuel Ventura

Professor

ENSAIO COVID 19 | N.º 07

O SNS

Ainda jovem, enfrenta, aos 40 anos, o maior e mais exigente desafio. Invadido por um inimigo, que se movimenta sem regras, se disfarça de um beijo, um toque, um espirro, que lhe limita a destreza e perturba a ação, alterando as rotinas e a atenção, própria e, próxima, mediada pela elegância e salubridade das batas brancas, adornadas por estetoscópios e canetas, coloridas e volumosas, que captam a atenção e motivam gratidão, vê-se, hoje, submetido a uma lógica “fabril”, onde os seus profissionais, dedicados e uniformemente fardados, reinventam as relações e, violam, com receio e altruísmo, as portas e fronteiras, vermelhas, ao encontro dos pacientes, doentes, contagiados, contaminados, isolados, num mundo, que se vislumbra por postigos e se humaniza no medo.

Um inimigo que desfocou o brilho e a sobriedade dos espaços, higienizados, a braços, pelos Operacionais do charme, que discretos, agora vemos, batemos palmas e agradecemos.

Haveremos de lhe devolver a elegância e o calor, humano, que o vermelho, alaranjado, de um qualquer ocaso, de um dia solarengo de agosto, em que o sol, disfarçado de vigia, confundido com um postigo, nos aproxima o horizonte, liberta a mente e capta a atenção, numa inspiração oxigenada e fresca, deslumbra e humaniza.

É assim o Serviço Nacional de Saúde, elegante e humanista.

Jorge Manuel Ventura

Professor

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Criado a 15 de setembro de 1979, pela Lei n.º 56/79, no seio do Ministério dos Assuntos Sociais, foi “ inspirado pelo desejo sincero de servir o povo, criando um sistema eficaz de proteção da saúde, humanizando a medicina e dignificando os utentes e trabalhadores do setor. (…) Saúde e fraternidade é a filosofia intrínseca do SNS”

António Arnaut, 1978 | Jornal Médico

ENSAIO COVID 19 | N.º 06

MEMÓRIA

Atores, nesta peça que, hoje, a realidade encena, ocorre-nos evocar o passado e todos os episódios e ensinamentos que, dele, pudemos colher.
A peça, sob o título, Pandemia, invoca a guerra e reduz-nos ao papel de beligerantes, num roteiro em que o(s) diretor(es) procura(m), num exercício comprometido e complexo, alterar o texto, de um teatro de máscaras onde os heróis são os médicos, os enfermeiros, os administrativos, os auxiliares e, agora, também, entre tantos outros, os militares.
A crise, que o roteiro antecipa, evoca o passado, 2007, com os empréstimos subprime (EUA), e daí, dando visibilidade às disfuncionalidades dos sistemas e da sociedade, suportadas num contexto de descontrolo e desregulamentação, geraram a toxicidade que, em 2008, determinou falências, desemprego e intervenção do(s) estado(s), submetidos à profundidade e dimensão da emergência a que globalização conferiu natureza pandémica.
Alemanha, França, Espanha, Itália, Dinamarca, EUA, Portugal e, outros, veem-se, hoje, tal como ontem, submetidos à urgência que a emergência e, as falências, parecem poder determinar, intervêm na economia, injetando dinheiro, tomando posições acionistas e, até, nacionalizando.
Procuramos, com esperança, antecipar o futuro, tentando garantir a produção, o emprego, a operacionalidade das empresas e os rendimentos familiares.
Procuramos, com esperança, resgatar o passado, do crescimento, da mobilidade e da prosperidade.
A “guerra”, que a peça parece evocar, garantiu, quando terminada, enormes sobras de aviões de transporte que, convertidos, abriram novas rotas e puderam voar.
A peça, cujo termo não se consegue antecipar, parece querer deixar sobras que jamais poderão levantar.

Jorge Manuel Ventura
Professor