NÓS

Capítulo 1

Isolados – em nós

Sentado, olho a televisão, elegante e disponível, que procura, habilidosamente, captar a minha atenção, vinculando-me, acorrentando-me ao sofá, onde, seduzido, me deixo levar pelas suas palavras, pelas suas histórias, pelos seus caminhos.

Hoje, decidi fugir, olhei a porta, fechada, atenta, que parecia olhar-me, fixamente, com a autoridade de quem está na posse de um mandado judicial. Preparei-me, despi-me, de mim, e saí.

A porta continuou a olhar-me, fixamente, convencida de que ali permanecia.

Parti sem bagagem, sem destino, sem identidade. Procurei novas latitudes, experiências, conhecimentos, realidades. Movido pelo poder prodigioso do infinito, viajei depressa, como uma onda, que se propaga até aos limites da matéria.

Regressei mais tarde, vestindo o fato que, feito à medida, me define as formas, as expressões, a imagem, que se reflete no espelho e confunde a porta.

Regressei despido, sem roupagens de novos elementos, formas, espaços, massa ou matéria.

Na consciência, de mim, vislumbrei o outro, os outros, o vazio e o todo.

Percebi que os monstros, os disformes e os alienígenas vivem, sequestrados, na nossa consciência, submetidos às fronteiras da nossa imaginação.

Hoje, tentei, sem remorso, abandonar-me – partir à descoberta, do novo, do desconhecido, da matéria, dos elementos.

Hoje, percebi, sem surpresa, que não existem novas cores, novas formas, novos elementos. Não existe, água, que não possa assumir o estado líquido; não existe luz, para além da sensibilidade do olho, humano; não existem outros, para além de nós.

Jorge Manuel Ventura

Professor

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Observação: Recorrentemente, somos confrontados com a inevitabilidade do que, invariavelmente, assumimos por – austeridade. Invariavelmente, a mesma quer significar cortes, congelamentos, impostos, certificados…

Nota: poder-se-ão descobrir novas fronteiras?

“ Aquilo que é regular, ordenado, factual, nunca basta para abranger toda a verdade: a vida extravasa sempre a borda de qualquer taça.”

Boris Pasternak, 1890 – 1960

ENSAIO COVID 19 | N.º 11

(Re)nascer

“ Que mundo vamos encontrar quando sairmos à rua?”

João A. Dias, Observador | 12.04.2020


A História que, hoje, escrevemos, não admite traduções nem se sujeita a interpretações; adota uma sintaxe universal e, induz uma semântica pessoal.

(Re)interpreta a vida, os objetos e as imagens que argamassam a “consciência”, a memória e, o tempo.

A História que, hoje, escrevemos, (re)fecunda-nos num embrião que aguarda, semana após semana, no útero protetor, em que se transformou a habitação, a hora do (re)nascimento, onde a luz e, a vida, nos voltarão a abraçar.

A História que, hoje, escrevemos, devolve-nos a inocência, o desconhecimento e, o desejo e a sede de decidir, que nos emancipará, como adultos, tomando consciência de nós e do ambiente, na construção da vida, nova, outra, e da arte que a mesma exige.

A História que, hoje, escrevemos, narra a construção de novas imagens, objetos, sentimentos e emoções, que a aprendizagem nos permitirá (re)construir.

A História que, hoje, escrevemos, (re)funda os nossos sentidos, remetendo as “imagens”, os cheiros e, os ruídos, experienciados e vividos, para o baú das memórias da vida, passada, vivida, transformada.

(Re)nascidos, libertos da proteção do âmnio habitacional, num “parto” em que a argamassa nos dará à luz e, nos devolverá a luz, construiremos sentimentos, novos, e uma, também, nova, “ Consciência” de, igualmente, novas, emoções.

A História que, hoje, escrevemos, (re)interpreta a semântica dos textos e dos sentidos, permitindo-nos, livremente, interpretar o que, agora, pudemos ler, à luz do novo mundo, que nasce para nós – para o qual (re)nascemos.


Jorge Ventura

Professor

“ A existência vivida de acordo com as outras formas de excelência é feliz numa segunda ordem, porquanto as atividades que se produzem desse modo fazem parte do horizonte humano enquanto tal.”

Aristóteles, Ética a Nicómaco

ENSAIO COVID 19 | N.º 09

Forças Armadas

“Forças Armadas desinfetam, montam tendas e camas, transportam e dão alimentos.”

 Nuno Ribeiro, Público | 1.04.2020

A detonação das bombas, noticiosas, que nos estremecem os tímpanos e enternecem o coração, perante o ataque, sem escrúpulos, a alvos civis e expostos, do inimigo que nos invadiu o território e violou a soberania, provocando baixas, com vida, vidas, com história, memória, dos tempos que nos embalavam, em sonos tranquilos, e nos seguravam, a mão, numa caminhada protegida, segura, que nos defendia, protegia, do perigo e do medo, de tudo, da noite e do escuro, trouxe, à luz, do dia, dos dias, estranhos e vividos, protegidos, escondidos, as Forças Armadas e a sua ação e missão.

São dias de crise, de perigo, de atenção e preocupação, que nos educam, reeducam, num exercício de memória do tempo da obrigação, do recenseamento, que nos dizia e fazia, sentir, mancebos, pequenos, numa instituição pesada, gigante, fundamental e relevante, para a vida, proteção e nação.

A crise, global, que, hoje, indiscriminada e arbitrariamente, se abateu sobre nós, invoca o conflito e a ação, concertada e subordinada, a princípios, tratados e pactos, partilhados, assumidos e assinados, por todos, representados nas instituições, que nos representam, a nós e às nações.

Observação: os tempos que vivemos, de ajuda transnacional e intervenção Militar, trazem-nos à memória os tratados, internacionais, fundamentais e fundacionais, do que, hoje, somos, e, hoje, como ontem, somos estado, nação, bandeira, instituição e razão, em reconhecer, na instituição, Militar, um pouco de nós.

As Forças Armadas representam-nos, hoje, em território nacional e internacional – no âmbito da NATO, da ONU, ou fruto de necessidades e preocupações bilaterais ou multilaterais, evocando o Pacto Atlântico, assinado em Washington, curiosamente, em abril, de 1949, que nos aviva o princípio da solidariedade e da proteção, mútuas, podendo inferir-se do seu artigo 5.º, o que hoje vivemos e percebemos – um por todos, todos por um, à imagem do oportuno – cuide de si, cuide dos outros.

Nota: O Pacto Atlântico foi assinado, em Washington, em 4 de abril de 1949, pelos cinco países signatários do tratado de Bruxelas, os EUA, o Canadá, a Noruega, a Dinamarca, a Islândia, Portugal e Itália.  

Jorge Manuel Ventura

Professor

ENSAIO COVID 19 | N.º 08

Amanhã

“Governo não sabe se poderá manter a promessa de aumentos salariais de 1% na função pública (2021) ”

Lusa e Público | 29.03.20

O quotidiano que, hoje, nos algema à incerteza, à dúvida, ao desconforto, ao sobressalto, que nos desprende de um sonho, mau, e nos devolve a vigília, a consciência, de que o dia, um novo dia, nascerá, e com ele, o sol, a luz, e as sombras, subestimadas, ofuscadas, pela luz, aconchegante, brilhante, estimulante, para o dia, o novo dia, de esperança, incerteza e dúvida.

Os dias que, hoje, nos subtraem a liberdade e nos impõem somas, de investimento, prioritário e urgente, (des)controlado e adequado, ao combate, que nos alista, a todos, e por todos, divide atenção e cuidado, na efetivação de uma decisão que nos orgulha, compromete, solidariza e remete, para a assunção da condição de cidadão, assumido e casado com a nação.

Os dias que, hoje, adicionam dívida, à dívida, numa sucessão de parcelas com as quais declaro, declaramos, todos, certa, absoluta e inequivocamente concordar, mas que, adicionadas, deixarão uma soma que, todos, absolutamente todos, teremos de assumir e pagar, não permitindo, hoje, projetar uma circunstância harmonizável com a expectativa, legítima, justa e outorgável, mas reconhecidamente, por força da situação e, conjuntura atual, improvável de, amanhã, poder ser realizável.

A solidariedade que, hoje, nos aproxima e convoca, para manifestações, criativas, emotivas, justas e partilháveis, tem de nos acompanhar, no futuro, próximo, num exercício de cidadania, de orgulho, e reconhecimento pelo esforço, hercúleo, para o qual, hoje, estamos alistados.

Observação: Julgo que a situação determinará a adoção de medidas mais extensas, não obstante as decisões do BCE e da CE, que, na minha opinião, não poderão traduzir, o “simplismo”, das adotadas em 2005 e 2011, cujo resultado agravaria o que, já hoje, se pode ler das conclusões do Inquérito à Situação Financeira das Famílias, publicado na Revista dos Estudos Económicos do BP. (tenciono voltar ao tema).

Jorge Manuel Ventura
Professor
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Foto: Do ilustrador Igor Morski

ENSAIO COVID 19 | N.º 06

MEMÓRIA

Atores, nesta peça que, hoje, a realidade encena, ocorre-nos evocar o passado e todos os episódios e ensinamentos que, dele, pudemos colher.
A peça, sob o título, Pandemia, invoca a guerra e reduz-nos ao papel de beligerantes, num roteiro em que o(s) diretor(es) procura(m), num exercício comprometido e complexo, alterar o texto, de um teatro de máscaras onde os heróis são os médicos, os enfermeiros, os administrativos, os auxiliares e, agora, também, entre tantos outros, os militares.
A crise, que o roteiro antecipa, evoca o passado, 2007, com os empréstimos subprime (EUA), e daí, dando visibilidade às disfuncionalidades dos sistemas e da sociedade, suportadas num contexto de descontrolo e desregulamentação, geraram a toxicidade que, em 2008, determinou falências, desemprego e intervenção do(s) estado(s), submetidos à profundidade e dimensão da emergência a que globalização conferiu natureza pandémica.
Alemanha, França, Espanha, Itália, Dinamarca, EUA, Portugal e, outros, veem-se, hoje, tal como ontem, submetidos à urgência que a emergência e, as falências, parecem poder determinar, intervêm na economia, injetando dinheiro, tomando posições acionistas e, até, nacionalizando.
Procuramos, com esperança, antecipar o futuro, tentando garantir a produção, o emprego, a operacionalidade das empresas e os rendimentos familiares.
Procuramos, com esperança, resgatar o passado, do crescimento, da mobilidade e da prosperidade.
A “guerra”, que a peça parece evocar, garantiu, quando terminada, enormes sobras de aviões de transporte que, convertidos, abriram novas rotas e puderam voar.
A peça, cujo termo não se consegue antecipar, parece querer deixar sobras que jamais poderão levantar.

Jorge Manuel Ventura
Professor

ENSAIO COVID 19 | N.º 03

 

ESTADO

A Economia centra, hoje, a atenção do(s) Estado(s) e das suas instituições políticas e financeiras, conferindo-se à gestão dos recursos e, à satisfação das necessidades, uma posição de topo, na hierarquização e definição de prioridades dos órgãos de decisão política, financeira e dos altos funcionários: do Estado.
Está, hoje, reservada às instituições, a definição de medidas de proteção e fomento da atividade económica e da limitação dos danos infligidos à produtividade, ao emprego e ao bem-estar dos cidadãos.
Neste tempo, novo, de distopia e preocupação, a definição dos estados de alerta e de emergência, traduzem, inequivocamente, a relevância e a autoridade do Estado.
É o tempo da Política e das suas instituições definirem regras, assumirem escolhas e vislumbrarem caminhos para mitigar o desastre social e económico que se acentua, tanto mais, quanto alastra a pandemia.
É o tempo em que o(s) Estado(s) e o(s) país(es) se confunde(m), numa comunhão, autêntica e descomplexada, submetidos a uma aproximação, maior, na tradução de um paradoxo, que, não raras vezes, os momentos e períodos de crise, determinam.
O passado está “recheado” de crises, catástrofes, pandemias e recessões, violentas, a que se seguiram períodos de crescimento, prosperidade e fruição de bem-estar.
A Europa e o Mundo souberam, sempre, “refundar-se” e, os Estados, suportados em compromissos e tratados internacionais, têm, reconhecidamente, sustentado o desenvolvimento e a melhoria das condições de vida dos cidadãos, dos países e das nações que, hoje, neste tempo de dúvida, limitando a circulação e bloqueando fronteiras, se aproximam, por força de um mecanismo de solidariedade e assunção de responsabilidade conjunta, que “federa” a Europa e nos corresponsabiliza e vincula a uma cidadania europeia.
Este tempo, novo tempo, é o tempo dos burocratas – eurocratas, o tempo da política, do (s) Estado(s) e, de todos, na assunção de uma natureza e cidadania de defesa e proteção da saúde individual e pública.
Quando, em 12 de junho de 1985, foi assinado, em Lisboa, nos Mosteiros dos Jerónimos, o Tratado de Adesão à Comunidade Económica Europeia (CEE), o Estado “lançou” as bases para a refundação do país, que, num futuro, próximo, se voltará a assistir, inevitavelmente.

Jorge Manuel Ventura
Professor

 

ENSAIO COVID 19 | N.º 02

Economia

Submetidos às leis da Biologia, estamos confrontados com a inimaginável desconsideração da nossa autoridade, do nosso Status, hostilizados pelo medo, que nos sequestrou a liberdade, invadiu a privacidade e limitou, perturbadoramente, a afabilidade, neste tempo de absurdo, que subestima a razão e confunde o raciocínio.
Confundem-se, hoje, como nunca, realidades tão diversas como as traduzidas pela Biologia e, a Economia, percebendo-se com, indelével, clareza, que a vida, como hoje se concebe, está refém do dinheiro, raiz da civilização, que nos trouxe a Itália renascentista e onde, por força da disseminação, por comerciantes genoveses, a peste bubónica, peste negra, trazida China por mercadores que percorriam a Rota da Seda, em meados do século XIV, alterou os equilíbrios e a estrutura económica vigente.
Neste tempo de absurdo, um simples spot publicitário a um qualquer bem supérfluo, confunde o nosso raciocínio, submetido à lógica do essencial e, ainda, inadaptado às novas regras do consumo, que determinam o encerramento e o estrangulamento dos fatores de produção, atiram, dolorosa e literalmente, trabalhadores para o desemprego e provocam preocupação, perturbação e medo.
Neste tempo de absurdo, de “guerra”, vislumbra-se a redefinição e a adaptação da produção aos bens, agora, essenciais, não bélicos, mas farmacêuticos e de aplicação hospitalar, vigiam-se preços, para controlar a inflação, provocada pela ação, que não classifico, do Homem, mesmo em tempo de solidariedade e disfuncionalidade.
Precisa-se de liquidez, de injeção de dinheiro, dos bancos centrais e da normalização da Economia.

“Assim é em tempo de guerra, as economias não podem morrer”1

1Mensagem do Presidente da República em 18 de março de 2020

Jorge Manuel Ventura
Professor

 

ENSAIO COVID 19 | N.º 01

Hoje

A experiência a que, hoje, estamos submetidos, interroga-nos, violentamente, sobre a nossa natureza civilizacional, ressuscita fragmentos da nossa história e limita-nos à nossa condição de fração da Biologia.
Estamos, à imagem de milhões de espécies, sujeitos à luta pela existência e à competição do mais apto pela sobrevivência.
A Biologia e as suas leis, impõem à Filosofia, à Arte, à Matemática e ao Direito, regras que atentam contra o status quo e redefinem os nossos padrões de vivência e convivência, civilizacionais.
A cooperação entre nós, passou a alicerçar a prossecução da ordem social, e o Estado, suportado nas premissas de organização e defesa, federo-nos numa cidadania protetora, com sentido de integração e pertença.
A experiência a que, hoje, estamos submetidos, convoca-nos para um olhar, despojado de preconceitos, sobre nós, convidando-nos, autoritariamente, impondo-nos, a indisfarçável necessidade de olhar o outro.
Sem alternativa, olhamos o outro, os outros, numa perturbadora subversão do código moral, que nos impele a afastar e a ver, em cada um, uma assustadora semelhança, tradutora da submissão às leis da Biologia, que hoje, determinam as nossas vidas.

Jorge Manuel Ventura
Professor