ENSAIO COVID 19 | N.º 12

AURORA

Terminamos, hoje, a contagem, lenta, dos dias de emergência; iniciamos, amanhã, a contagem, ponderada, dos dias de calamidade.

Vivemos dias incomuns; experimentamos o medo, a incerteza, a notícia – repetida, submetida, confinada – que nos trouxe as ruas, as palmas, as telas e as salas, de onde redescobrimos as praças, os vizinhos, os sons e os passarinhos, num refúgio, sanitário, que nos mostrou aviões, estacionados; navios, amarrados; hospitais, sobrelotados; e nos aproximou, o mundo, acorrentado ao medo, à incerteza, e à notícia – repetida, submetida.

Amanhã, iniciamos a viagem de regresso ao aconchego dos dias que a memória guardou e, aludidos, nos devolvem a esperança de que, o comum, “tudo vai ficar bem”, possa traduzir, o desejado, “tudo vai ficar igual”.

Hoje, terminamos a contagem dos dias de emergência; amanhã, começamos a fazer, as contas, a que a “calamidade”, num enunciado, confuso, impreciso, desestruturado e, inaudito, nos apresentou.

Na viagem que, hoje, terminamos, com escala em doze ensaios e, uma opinião, “fotografámos / fotografamos” a nossa condição, biológica; a nossa dimensão, social, económica, política; a nossa predisposição, solidária; e a nossa acuidade, crítica.

Amanhã, iniciamos uma nova viagem, que nos levará a olhar, para nós, para os outros, para as instituições, para Portugal, para as nações, para a solidariedade e as gerações.

Amanhã, iniciamos uma nova viagem, autorizada, que nos levará à descoberta de novas latitudes, conhecidas, reconhecidas, exploradas, inexploradas, mas sempre, estou convicto, projetadas, numa imagem, passível de correções, aprovações, reprovações e, opiniões.

Bem-vindos a bordo.

Muito obrigado.

Jorge Manuel ventura

ENSAIO COVID 19 | N.º 10

Perceção e Perspetiva

“TAP vai pagar acima do máximo do layoff”

Luís Villalobos, Público | 1.04.2020

Numa viagem, no tempo, levando, na bagagem, a memória e, no roteiro, a consciência, regressamos ao passado, recente, ainda presente, das passas, Champagne e gala, para assistir, em 1 de janeiro de 2020, ao encerramento do mercado, numa escala que nos levará pelo oriente, Tailândia, Coreia e Japão, de Hiroshima e dos Bonsais, verdes, ancestrais, na esperança de um regresso, cancelado, ao ponto de partida, agora isolado, em 22 de janeiro de 2020.

Regressámos, mais tarde, em 2 de fevereiro de 2020, num voo fretado, de resgate, repatriamento, de cidadãos, libertados e, logo, isolados, num “estúdio”, de “animação”, inspirado na televisão e no seu grande sucesso e, irmão, a tempo de assistir, em 11 de fevereiro de 2020, já em casa, distantes e, “protegidos”, ao batismo da nova infeção, que encerrou o mercado e isolou a nação, COVID -19, que nos convida à reflexão, hoje, nesta viagem, no tempo, ao dia das passas, Champagne e ilusão.

Chegámos tarde, foi a confusão, os atrasos, o tráfego, os aeroportos, as viagens e a globalização, que remeteu, para as calendas, 11 de março de 2020, a declaração, da COVID, como pandemia, com inquietação.

Mas somos Europa, Atenas, Roma, centralidade e, notícia, somos o centro, da infeção, em 13 de março de 2020, sob condição.

Estamos de volta, estamos em casa, fechada, protegida, isolada, mascarada, de medo, de dúvida e de convicção, de que, em 1 de janeiro de 2020, percebemos mal a informação.

Foi do barulho, da turbulência, dos aeroportos e da confusão, que já não existe, bloqueou rotas, cancelou voos, imobilizou aviões, causou estupefação, na redefinição de um tempo de transição.

Jorge Manuel Ventura

Professor

Observação: o título do “ensaio” procura relacionar a incompreensão do passado, recente, presente, e a ilusão do futuro.

O tempo, o novo e perturbador tempo, do isolamento e da estagnação, não é, julgo, apenas, um intervalo. Tenciono voltar ao tema – os exemplos da incompreensão do presente e da ilusão da recaptura do passado, são inúmeros.

ENSAIO COVID 19 | N.º 09

Forças Armadas

“Forças Armadas desinfetam, montam tendas e camas, transportam e dão alimentos.”

 Nuno Ribeiro, Público | 1.04.2020

A detonação das bombas, noticiosas, que nos estremecem os tímpanos e enternecem o coração, perante o ataque, sem escrúpulos, a alvos civis e expostos, do inimigo que nos invadiu o território e violou a soberania, provocando baixas, com vida, vidas, com história, memória, dos tempos que nos embalavam, em sonos tranquilos, e nos seguravam, a mão, numa caminhada protegida, segura, que nos defendia, protegia, do perigo e do medo, de tudo, da noite e do escuro, trouxe, à luz, do dia, dos dias, estranhos e vividos, protegidos, escondidos, as Forças Armadas e a sua ação e missão.

São dias de crise, de perigo, de atenção e preocupação, que nos educam, reeducam, num exercício de memória do tempo da obrigação, do recenseamento, que nos dizia e fazia, sentir, mancebos, pequenos, numa instituição pesada, gigante, fundamental e relevante, para a vida, proteção e nação.

A crise, global, que, hoje, indiscriminada e arbitrariamente, se abateu sobre nós, invoca o conflito e a ação, concertada e subordinada, a princípios, tratados e pactos, partilhados, assumidos e assinados, por todos, representados nas instituições, que nos representam, a nós e às nações.

Observação: os tempos que vivemos, de ajuda transnacional e intervenção Militar, trazem-nos à memória os tratados, internacionais, fundamentais e fundacionais, do que, hoje, somos, e, hoje, como ontem, somos estado, nação, bandeira, instituição e razão, em reconhecer, na instituição, Militar, um pouco de nós.

As Forças Armadas representam-nos, hoje, em território nacional e internacional – no âmbito da NATO, da ONU, ou fruto de necessidades e preocupações bilaterais ou multilaterais, evocando o Pacto Atlântico, assinado em Washington, curiosamente, em abril, de 1949, que nos aviva o princípio da solidariedade e da proteção, mútuas, podendo inferir-se do seu artigo 5.º, o que hoje vivemos e percebemos – um por todos, todos por um, à imagem do oportuno – cuide de si, cuide dos outros.

Nota: O Pacto Atlântico foi assinado, em Washington, em 4 de abril de 1949, pelos cinco países signatários do tratado de Bruxelas, os EUA, o Canadá, a Noruega, a Dinamarca, a Islândia, Portugal e Itália.  

Jorge Manuel Ventura

Professor

ENSAIO COVID 19 | N.º 08

Amanhã

“Governo não sabe se poderá manter a promessa de aumentos salariais de 1% na função pública (2021) ”

Lusa e Público | 29.03.20

O quotidiano que, hoje, nos algema à incerteza, à dúvida, ao desconforto, ao sobressalto, que nos desprende de um sonho, mau, e nos devolve a vigília, a consciência, de que o dia, um novo dia, nascerá, e com ele, o sol, a luz, e as sombras, subestimadas, ofuscadas, pela luz, aconchegante, brilhante, estimulante, para o dia, o novo dia, de esperança, incerteza e dúvida.

Os dias que, hoje, nos subtraem a liberdade e nos impõem somas, de investimento, prioritário e urgente, (des)controlado e adequado, ao combate, que nos alista, a todos, e por todos, divide atenção e cuidado, na efetivação de uma decisão que nos orgulha, compromete, solidariza e remete, para a assunção da condição de cidadão, assumido e casado com a nação.

Os dias que, hoje, adicionam dívida, à dívida, numa sucessão de parcelas com as quais declaro, declaramos, todos, certa, absoluta e inequivocamente concordar, mas que, adicionadas, deixarão uma soma que, todos, absolutamente todos, teremos de assumir e pagar, não permitindo, hoje, projetar uma circunstância harmonizável com a expectativa, legítima, justa e outorgável, mas reconhecidamente, por força da situação e, conjuntura atual, improvável de, amanhã, poder ser realizável.

A solidariedade que, hoje, nos aproxima e convoca, para manifestações, criativas, emotivas, justas e partilháveis, tem de nos acompanhar, no futuro, próximo, num exercício de cidadania, de orgulho, e reconhecimento pelo esforço, hercúleo, para o qual, hoje, estamos alistados.

Observação: Julgo que a situação determinará a adoção de medidas mais extensas, não obstante as decisões do BCE e da CE, que, na minha opinião, não poderão traduzir, o “simplismo”, das adotadas em 2005 e 2011, cujo resultado agravaria o que, já hoje, se pode ler das conclusões do Inquérito à Situação Financeira das Famílias, publicado na Revista dos Estudos Económicos do BP. (tenciono voltar ao tema).

Jorge Manuel Ventura
Professor
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Foto: Do ilustrador Igor Morski

ENSAIO COVID 19 | N.º 07

O SNS

Ainda jovem, enfrenta, aos 40 anos, o maior e mais exigente desafio. Invadido por um inimigo, que se movimenta sem regras, se disfarça de um beijo, um toque, um espirro, que lhe limita a destreza e perturba a ação, alterando as rotinas e a atenção, própria e, próxima, mediada pela elegância e salubridade das batas brancas, adornadas por estetoscópios e canetas, coloridas e volumosas, que captam a atenção e motivam gratidão, vê-se, hoje, submetido a uma lógica “fabril”, onde os seus profissionais, dedicados e uniformemente fardados, reinventam as relações e, violam, com receio e altruísmo, as portas e fronteiras, vermelhas, ao encontro dos pacientes, doentes, contagiados, contaminados, isolados, num mundo, que se vislumbra por postigos e se humaniza no medo.

Um inimigo que desfocou o brilho e a sobriedade dos espaços, higienizados, a braços, pelos Operacionais do charme, que discretos, agora vemos, batemos palmas e agradecemos.

Haveremos de lhe devolver a elegância e o calor, humano, que o vermelho, alaranjado, de um qualquer ocaso, de um dia solarengo de agosto, em que o sol, disfarçado de vigia, confundido com um postigo, nos aproxima o horizonte, liberta a mente e capta a atenção, numa inspiração oxigenada e fresca, deslumbra e humaniza.

É assim o Serviço Nacional de Saúde, elegante e humanista.

Jorge Manuel Ventura

Professor

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Criado a 15 de setembro de 1979, pela Lei n.º 56/79, no seio do Ministério dos Assuntos Sociais, foi “ inspirado pelo desejo sincero de servir o povo, criando um sistema eficaz de proteção da saúde, humanizando a medicina e dignificando os utentes e trabalhadores do setor. (…) Saúde e fraternidade é a filosofia intrínseca do SNS”

António Arnaut, 1978 | Jornal Médico

ENSAIO COVID 19 | N.º 06

MEMÓRIA

Atores, nesta peça que, hoje, a realidade encena, ocorre-nos evocar o passado e todos os episódios e ensinamentos que, dele, pudemos colher.
A peça, sob o título, Pandemia, invoca a guerra e reduz-nos ao papel de beligerantes, num roteiro em que o(s) diretor(es) procura(m), num exercício comprometido e complexo, alterar o texto, de um teatro de máscaras onde os heróis são os médicos, os enfermeiros, os administrativos, os auxiliares e, agora, também, entre tantos outros, os militares.
A crise, que o roteiro antecipa, evoca o passado, 2007, com os empréstimos subprime (EUA), e daí, dando visibilidade às disfuncionalidades dos sistemas e da sociedade, suportadas num contexto de descontrolo e desregulamentação, geraram a toxicidade que, em 2008, determinou falências, desemprego e intervenção do(s) estado(s), submetidos à profundidade e dimensão da emergência a que globalização conferiu natureza pandémica.
Alemanha, França, Espanha, Itália, Dinamarca, EUA, Portugal e, outros, veem-se, hoje, tal como ontem, submetidos à urgência que a emergência e, as falências, parecem poder determinar, intervêm na economia, injetando dinheiro, tomando posições acionistas e, até, nacionalizando.
Procuramos, com esperança, antecipar o futuro, tentando garantir a produção, o emprego, a operacionalidade das empresas e os rendimentos familiares.
Procuramos, com esperança, resgatar o passado, do crescimento, da mobilidade e da prosperidade.
A “guerra”, que a peça parece evocar, garantiu, quando terminada, enormes sobras de aviões de transporte que, convertidos, abriram novas rotas e puderam voar.
A peça, cujo termo não se consegue antecipar, parece querer deixar sobras que jamais poderão levantar.

Jorge Manuel Ventura
Professor

ENSAIO COVID 19 | N.º 04

POLÍTICA

Os dias que arquitetam o presente, inquietante e perturbador, deixam, na opacidade da dúvida, a assunção, incontornável e translúcida, da natureza humana e da luta pela sobrevivência.
Lembram-nos, com irrenunciável violência, os quão utópicos foram os tempos que os antecederam.
Lembram-nos, num grito de desequilíbrio e frustração, quão fortemente desconsiderámos o acesso aos bens de primeira necessidade – e supérfluos, aos cuidados de saúde, aos serviços, à educação e proteção social, aos direitos laborais, ao programa nacional de vacinação, ao tempo de descanso e pausa, às férias e ao convívio familiar e social.
Lembram-nos, num grito de desespero e temor, quão injustos fomos com os dias que aqui nos trouxeram, de utopia e bem-estar, que recorrente e, sistematicamente, teimámos em desconsiderar.
Lembram-nos, com esperança, que a utopia está para chegar.
Estes dias, da política e dos políticos, de decisão e transparência, impõem à política e ao(s) governo(s) a obrigatoriedade de se assumir o pragmatismo em detrimento do idealismo ou dogmatismo.
São dias de união de compromisso comunitário, de exercício cívico que, neste estado de emergência, não autoriza abstenções ou a votação da política e dos políticos à desconsideração e indiferença.
São dias de exigência.
A política assume, hoje, à imagem dos tempos de guerra ou de construção da paz, o papel principal no ato onde, também nós, somos atores.
Estes dias, novos dias, sob o véu diáfano do medo, não deixarão de se constituir como pilares, fortes e, harmonizados, com o projeto do futuro, onde, todos, teremos de ser agentes de proteção, de participação cívica e do resgate da utopia, violenta e inesperadamente, subtraída.
Impõem mudanças no funcionamento das instituições, na ação das lideranças e no funcionamento das democracias.
Estes dias, novos e tensos, lembram-nos o tão, recorrentemente, evocado e tantas vezes ignorado, Tratado de Maastricht (Tratado da União Europeia), que estabeleceu a cidadania europeia e que, agora, nos dias que arquitetam o presente, melhor percebemos.

Hoje, como ontem, a união será a maior força.

Jorge Manuel Ventura
Professor

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“ (…) far-se-á por meio de realizações concretas que criem, em primeiro lugar, uma solidariedade, de facto.”
Robert Shuman, 1950

ENSAIO COVID 19 | N.º 03

 

ESTADO

A Economia centra, hoje, a atenção do(s) Estado(s) e das suas instituições políticas e financeiras, conferindo-se à gestão dos recursos e, à satisfação das necessidades, uma posição de topo, na hierarquização e definição de prioridades dos órgãos de decisão política, financeira e dos altos funcionários: do Estado.
Está, hoje, reservada às instituições, a definição de medidas de proteção e fomento da atividade económica e da limitação dos danos infligidos à produtividade, ao emprego e ao bem-estar dos cidadãos.
Neste tempo, novo, de distopia e preocupação, a definição dos estados de alerta e de emergência, traduzem, inequivocamente, a relevância e a autoridade do Estado.
É o tempo da Política e das suas instituições definirem regras, assumirem escolhas e vislumbrarem caminhos para mitigar o desastre social e económico que se acentua, tanto mais, quanto alastra a pandemia.
É o tempo em que o(s) Estado(s) e o(s) país(es) se confunde(m), numa comunhão, autêntica e descomplexada, submetidos a uma aproximação, maior, na tradução de um paradoxo, que, não raras vezes, os momentos e períodos de crise, determinam.
O passado está “recheado” de crises, catástrofes, pandemias e recessões, violentas, a que se seguiram períodos de crescimento, prosperidade e fruição de bem-estar.
A Europa e o Mundo souberam, sempre, “refundar-se” e, os Estados, suportados em compromissos e tratados internacionais, têm, reconhecidamente, sustentado o desenvolvimento e a melhoria das condições de vida dos cidadãos, dos países e das nações que, hoje, neste tempo de dúvida, limitando a circulação e bloqueando fronteiras, se aproximam, por força de um mecanismo de solidariedade e assunção de responsabilidade conjunta, que “federa” a Europa e nos corresponsabiliza e vincula a uma cidadania europeia.
Este tempo, novo tempo, é o tempo dos burocratas – eurocratas, o tempo da política, do (s) Estado(s) e, de todos, na assunção de uma natureza e cidadania de defesa e proteção da saúde individual e pública.
Quando, em 12 de junho de 1985, foi assinado, em Lisboa, nos Mosteiros dos Jerónimos, o Tratado de Adesão à Comunidade Económica Europeia (CEE), o Estado “lançou” as bases para a refundação do país, que, num futuro, próximo, se voltará a assistir, inevitavelmente.

Jorge Manuel Ventura
Professor

 

ENSAIO COVID 19 | N.º 02

Economia

Submetidos às leis da Biologia, estamos confrontados com a inimaginável desconsideração da nossa autoridade, do nosso Status, hostilizados pelo medo, que nos sequestrou a liberdade, invadiu a privacidade e limitou, perturbadoramente, a afabilidade, neste tempo de absurdo, que subestima a razão e confunde o raciocínio.
Confundem-se, hoje, como nunca, realidades tão diversas como as traduzidas pela Biologia e, a Economia, percebendo-se com, indelével, clareza, que a vida, como hoje se concebe, está refém do dinheiro, raiz da civilização, que nos trouxe a Itália renascentista e onde, por força da disseminação, por comerciantes genoveses, a peste bubónica, peste negra, trazida China por mercadores que percorriam a Rota da Seda, em meados do século XIV, alterou os equilíbrios e a estrutura económica vigente.
Neste tempo de absurdo, um simples spot publicitário a um qualquer bem supérfluo, confunde o nosso raciocínio, submetido à lógica do essencial e, ainda, inadaptado às novas regras do consumo, que determinam o encerramento e o estrangulamento dos fatores de produção, atiram, dolorosa e literalmente, trabalhadores para o desemprego e provocam preocupação, perturbação e medo.
Neste tempo de absurdo, de “guerra”, vislumbra-se a redefinição e a adaptação da produção aos bens, agora, essenciais, não bélicos, mas farmacêuticos e de aplicação hospitalar, vigiam-se preços, para controlar a inflação, provocada pela ação, que não classifico, do Homem, mesmo em tempo de solidariedade e disfuncionalidade.
Precisa-se de liquidez, de injeção de dinheiro, dos bancos centrais e da normalização da Economia.

“Assim é em tempo de guerra, as economias não podem morrer”1

1Mensagem do Presidente da República em 18 de março de 2020

Jorge Manuel Ventura
Professor

 

ENSAIO COVID 19 | N.º 01

Hoje

A experiência a que, hoje, estamos submetidos, interroga-nos, violentamente, sobre a nossa natureza civilizacional, ressuscita fragmentos da nossa história e limita-nos à nossa condição de fração da Biologia.
Estamos, à imagem de milhões de espécies, sujeitos à luta pela existência e à competição do mais apto pela sobrevivência.
A Biologia e as suas leis, impõem à Filosofia, à Arte, à Matemática e ao Direito, regras que atentam contra o status quo e redefinem os nossos padrões de vivência e convivência, civilizacionais.
A cooperação entre nós, passou a alicerçar a prossecução da ordem social, e o Estado, suportado nas premissas de organização e defesa, federo-nos numa cidadania protetora, com sentido de integração e pertença.
A experiência a que, hoje, estamos submetidos, convoca-nos para um olhar, despojado de preconceitos, sobre nós, convidando-nos, autoritariamente, impondo-nos, a indisfarçável necessidade de olhar o outro.
Sem alternativa, olhamos o outro, os outros, numa perturbadora subversão do código moral, que nos impele a afastar e a ver, em cada um, uma assustadora semelhança, tradutora da submissão às leis da Biologia, que hoje, determinam as nossas vidas.

Jorge Manuel Ventura
Professor