Acompanhei, em silêncio, o percurso da manhã, numa caminhada que me convidou a olhar – devagar, a tela que a brisa desenhou, quando, humilde, se ausentou.
Olhei, olhei-me no espelho – de água, que me mostrou, sob os raios – de luz, do sol que nos acompanhou, o esboço do que, hoje, estou.
Caminhei, devagar, de mão dada com a manhã, que me convidou a sentir – em silêncio, a paz que a mesma me deixou, quando, já tarde, me abandonou.
Olhei, olhei de novo, o texto que a paz enunciou.
Li, mais tarde, nas linhas, sombrias, que a ausência registou, a metamorfose do dia, dos dias, da vida e do que sou.
Acompanhei, em silêncio, o percurso da manhã, numa caminhada que me convidou a pensar – devagar, a subjetividade do olhar.
Recordo, agora, o que a manhã me mostrou – o esboço, a paz, a luz, o espelho, o silêncio, a humildade – cúmplice, do que nos aproximou – a água, metamórfica, que, hoje, testemunhou a relação, a caminhada, o namoro, o princípio, o fim – da manhã, tranquila, amena, solarenga, que me conquistou.
Jorge Manuel Ventura
Professor
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“ Temos de ter bem presente que, quando se trata de átomos, a linguagem só pode ser utilizada como em poesia. O poeta preocupa-se menos com a descrição dos factos do que com a criação de imagens e estabelecimento de conexões mentais”.
Niels Bohr, Prémio Nobel da Física – 1922
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Imagem: Metamorfose de Narciso – Salvador Dali

