A Metamorfose do Sujeito

Acompanhei, em silêncio, o percurso da manhã, numa caminhada que me convidou a olhar – devagar, a tela que a brisa desenhou, quando, humilde, se ausentou.

Olhei, olhei-me no espelho – de água, que me mostrou, sob os raios – de luz, do sol que nos acompanhou, o esboço do que, hoje, estou.

Caminhei, devagar, de mão dada com a manhã, que me convidou a sentir – em silêncio, a paz que a mesma me deixou, quando, já tarde, me abandonou.

Olhei, olhei de novo, o texto que a paz enunciou.

Li, mais tarde, nas linhas, sombrias, que a ausência registou, a metamorfose do dia, dos dias, da vida e do que sou.

Acompanhei, em silêncio, o percurso da manhã, numa caminhada que me convidou a pensar – devagar, a subjetividade do olhar.

Recordo, agora, o que a manhã me mostrou – o esboço, a paz, a luz, o espelho, o silêncio, a humildade – cúmplice, do que nos aproximou – a água, metamórfica, que, hoje, testemunhou a relação, a caminhada, o namoro, o princípio, o fim – da manhã, tranquila, amena, solarenga, que me conquistou.

Jorge Manuel Ventura

Professor

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“ Temos de ter bem presente que, quando se trata de átomos, a linguagem só pode ser utilizada como em poesia. O poeta preocupa-se menos com a descrição dos factos do que com a criação de imagens e estabelecimento de conexões mentais”.

Niels Bohr, Prémio Nobel da Física – 1922

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Imagem: Metamorfose de Narciso – Salvador Dali

Porquê?


Interrogo-me, quando me interpelas, no calor da despedida – por que te olho? Por que te abandono? Por que te furto o sorriso, o olhar, a expressão?
(…)
Questiono-me, quando te olham, procurando ver-me – no silêncio, acético, de um grito de dor, de saudade, de amor; por que desisto? Por que te deixo? Por que te dispo?
(…)
Pergunto-me, porque me recordo do teu olhar tranquilo, com quem dialogava – por que o dizias? Por que o pedias? Por que não mentias?
(…)
Lembro-me, das longas conversas – íntimas, autênticas, moderadas – pela solidão da noite que espreitava a luz, rasgava as portadas e, mostrava as estrelas, o brilho, o olhar – expressivo, com que comunicavas, rias, choravas.
Porquê? Por que me trouxeste? Por que não fugiste? Por que não me traíste?


Jorge Manuel Ventura
Professor

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“Cada frase que pronuncio deve entender-se não como uma afirmação, mas como uma pergunta”.
Niels Bohr, Prémio Nobel da Física – 1922

“ A verdade e a clareza são complementares”.
Niels Bohr, Prémio Nobel da Física – 1922

“ O tempo passado é finito, o tempo futuro é infinito”.
Edwin Hubble, The Observational Approach to Cosmology (1937)