A ILHA

Tropeço, no grasnar de uma gaivota, e mergulho, num oceano de histórias, vivências, derrotas, vitórias.
Caio, em mim, e resgato, das profundezas do passado, os destroços do naufrágio dos dias, que vislumbro, no horizonte da maré.
Percebo, na vertigem dos abismos, a beleza das cores, da luz e, das flores – que inspiro, em átomos de oxigénio, e me elevam, aos limites da esperança, que desenho, na tela, azul, da liberdade do voo, e recordo, no espelho, de água, que me reflete, estrutura e, reconhece.
Tropeço, no grasnar de uma gaivota, e mergulho, no universo dos sonhos, histórias, vitórias.
Escuto, na voz do silêncio, a solidão da brisa, que me acompanha – no limites dos sentidos – à exploração do indizível; ao sentimento de mim – que me eleva, à condição de existir, neste oceano de cores, sons, luz e odores.


Jorge Manuel Ventura
Professor

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“É através da luz e através de uma ideia clara que a mente vê a essência das coisas, dos números e da extensão.
É através de uma ideia vaga ou através de um sentimento que a mente ajuíza sobre a existência das criaturas e se apercebe da sua própria existência.”

Nicholas Malebranche, De La Recherche de la Vérité (Paris, A. Pralard, 1678-1679) – tradução de A. Damásio, O Sentimento de Si

“Colombo converteu-se no protótipo dos descobridores. O seu “ sempre, sempre para Oeste” representa a sua perseverança, o seu
“terra, terra”, a alegria do êxito e, a sua aventura completa, a convicção de que a vida não é a maior possessão”.

Ludwig Boltzmann, A Viagem de um Catedrático Alemão ao Eldorado

OLHO-ME


Avanço, atraído pela, tangível, expressão da massa, coreografada pela sucessão de passos, que a expõem, numa encenação de sombras, num dia, solarengo – de outono, onde o paradoxo da desidratação se anuncia na beleza e “tonalidade” das folhas, que se precipitam, em trajetórias newtonianas, dando vida, numa sucessão de “acordes”, humildes, a cada avanço que intentas, na, retilínea, ilusão que a curvatura – do tempo, denuncia.
Percebo, sob a luz, quente, da carícia, aveludada, que te afaga o rosto, a (de)formação do corpo, que acompanha o avanço – do tempo, na relativização do espaço e subversão do absoluto.
Olho-te, surpreendido pela geometria e tangibilidade da escultura, que me denuncia, quando, presente, me exponho aos olhares, imprecisos, com que os sentidos me iludem, pela força que te define o percurso, incapaz de contrariar a atração da materialidade que me estrutura e (de)forma.
Olho-me, persuadido pela flexão da onda, que te orienta e suporta, com a inércia da deriva, que distorce as “linhas” e (re)define o referencial, da geometria da relatividade.
Caminho, lado a lado, com a matéria que me submete às leis que encenam os passos da equação da vida.
Avanço, pela equação da curva, curvatura do espaço – tempo, que me consome energia e, força, num bailado de corpos, a olhar o outro, os outros.
Olho-te.


Jorge Manuel Ventura
Professor

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Em 6 de outubro de 2020, foi atribuído o Prémio Nobel da Física a Roger Penrose, “para a descoberta de que a formação de buracos negros é uma predição robusta da teoria da Relatividade Geral”; e para Reinhard Genzel e Andrea Ghenz “ pela descoberta de um objeto compacto supermassivo no centro da nossa galáxia”.

Marta leite Ferreira, Observador, 06 out 2020