OLHO-ME


Avanço, atraído pela, tangível, expressão da massa, coreografada pela sucessão de passos, que a expõem, numa encenação de sombras, num dia, solarengo – de outono, onde o paradoxo da desidratação se anuncia na beleza e “tonalidade” das folhas, que se precipitam, em trajetórias newtonianas, dando vida, numa sucessão de “acordes”, humildes, a cada avanço que intentas, na, retilínea, ilusão que a curvatura – do tempo, denuncia.
Percebo, sob a luz, quente, da carícia, aveludada, que te afaga o rosto, a (de)formação do corpo, que acompanha o avanço – do tempo, na relativização do espaço e subversão do absoluto.
Olho-te, surpreendido pela geometria e tangibilidade da escultura, que me denuncia, quando, presente, me exponho aos olhares, imprecisos, com que os sentidos me iludem, pela força que te define o percurso, incapaz de contrariar a atração da materialidade que me estrutura e (de)forma.
Olho-me, persuadido pela flexão da onda, que te orienta e suporta, com a inércia da deriva, que distorce as “linhas” e (re)define o referencial, da geometria da relatividade.
Caminho, lado a lado, com a matéria que me submete às leis que encenam os passos da equação da vida.
Avanço, pela equação da curva, curvatura do espaço – tempo, que me consome energia e, força, num bailado de corpos, a olhar o outro, os outros.
Olho-te.


Jorge Manuel Ventura
Professor

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Em 6 de outubro de 2020, foi atribuído o Prémio Nobel da Física a Roger Penrose, “para a descoberta de que a formação de buracos negros é uma predição robusta da teoria da Relatividade Geral”; e para Reinhard Genzel e Andrea Ghenz “ pela descoberta de um objeto compacto supermassivo no centro da nossa galáxia”.

Marta leite Ferreira, Observador, 06 out 2020