POLÍTICA
Os dias que arquitetam o presente, inquietante e perturbador, deixam, na opacidade da dúvida, a assunção, incontornável e translúcida, da natureza humana e da luta pela sobrevivência.
Lembram-nos, com irrenunciável violência, os quão utópicos foram os tempos que os antecederam.
Lembram-nos, num grito de desequilíbrio e frustração, quão fortemente desconsiderámos o acesso aos bens de primeira necessidade – e supérfluos, aos cuidados de saúde, aos serviços, à educação e proteção social, aos direitos laborais, ao programa nacional de vacinação, ao tempo de descanso e pausa, às férias e ao convívio familiar e social.
Lembram-nos, num grito de desespero e temor, quão injustos fomos com os dias que aqui nos trouxeram, de utopia e bem-estar, que recorrente e, sistematicamente, teimámos em desconsiderar.
Lembram-nos, com esperança, que a utopia está para chegar.
Estes dias, da política e dos políticos, de decisão e transparência, impõem à política e ao(s) governo(s) a obrigatoriedade de se assumir o pragmatismo em detrimento do idealismo ou dogmatismo.
São dias de união de compromisso comunitário, de exercício cívico que, neste estado de emergência, não autoriza abstenções ou a votação da política e dos políticos à desconsideração e indiferença.
São dias de exigência.
A política assume, hoje, à imagem dos tempos de guerra ou de construção da paz, o papel principal no ato onde, também nós, somos atores.
Estes dias, novos dias, sob o véu diáfano do medo, não deixarão de se constituir como pilares, fortes e, harmonizados, com o projeto do futuro, onde, todos, teremos de ser agentes de proteção, de participação cívica e do resgate da utopia, violenta e inesperadamente, subtraída.
Impõem mudanças no funcionamento das instituições, na ação das lideranças e no funcionamento das democracias.
Estes dias, novos e tensos, lembram-nos o tão, recorrentemente, evocado e tantas vezes ignorado, Tratado de Maastricht (Tratado da União Europeia), que estabeleceu a cidadania europeia e que, agora, nos dias que arquitetam o presente, melhor percebemos.
Hoje, como ontem, a união será a maior força.
Jorge Manuel Ventura
Professor
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“ (…) far-se-á por meio de realizações concretas que criem, em primeiro lugar, uma solidariedade, de facto.”
Robert Shuman, 1950
