ENSAIO COVID 19 | N.º 12

AURORA

Terminamos, hoje, a contagem, lenta, dos dias de emergência; iniciamos, amanhã, a contagem, ponderada, dos dias de calamidade.

Vivemos dias incomuns; experimentamos o medo, a incerteza, a notícia – repetida, submetida, confinada – que nos trouxe as ruas, as palmas, as telas e as salas, de onde redescobrimos as praças, os vizinhos, os sons e os passarinhos, num refúgio, sanitário, que nos mostrou aviões, estacionados; navios, amarrados; hospitais, sobrelotados; e nos aproximou, o mundo, acorrentado ao medo, à incerteza, e à notícia – repetida, submetida.

Amanhã, iniciamos a viagem de regresso ao aconchego dos dias que a memória guardou e, aludidos, nos devolvem a esperança de que, o comum, “tudo vai ficar bem”, possa traduzir, o desejado, “tudo vai ficar igual”.

Hoje, terminamos a contagem dos dias de emergência; amanhã, começamos a fazer, as contas, a que a “calamidade”, num enunciado, confuso, impreciso, desestruturado e, inaudito, nos apresentou.

Na viagem que, hoje, terminamos, com escala em doze ensaios e, uma opinião, “fotografámos / fotografamos” a nossa condição, biológica; a nossa dimensão, social, económica, política; a nossa predisposição, solidária; e a nossa acuidade, crítica.

Amanhã, iniciamos uma nova viagem, que nos levará a olhar, para nós, para os outros, para as instituições, para Portugal, para as nações, para a solidariedade e as gerações.

Amanhã, iniciamos uma nova viagem, autorizada, que nos levará à descoberta de novas latitudes, conhecidas, reconhecidas, exploradas, inexploradas, mas sempre, estou convicto, projetadas, numa imagem, passível de correções, aprovações, reprovações e, opiniões.

Bem-vindos a bordo.

Muito obrigado.

Jorge Manuel ventura

ENSAIO COVID 19 | N.º 11

(Re)nascer

“ Que mundo vamos encontrar quando sairmos à rua?”

João A. Dias, Observador | 12.04.2020


A História que, hoje, escrevemos, não admite traduções nem se sujeita a interpretações; adota uma sintaxe universal e, induz uma semântica pessoal.

(Re)interpreta a vida, os objetos e as imagens que argamassam a “consciência”, a memória e, o tempo.

A História que, hoje, escrevemos, (re)fecunda-nos num embrião que aguarda, semana após semana, no útero protetor, em que se transformou a habitação, a hora do (re)nascimento, onde a luz e, a vida, nos voltarão a abraçar.

A História que, hoje, escrevemos, devolve-nos a inocência, o desconhecimento e, o desejo e a sede de decidir, que nos emancipará, como adultos, tomando consciência de nós e do ambiente, na construção da vida, nova, outra, e da arte que a mesma exige.

A História que, hoje, escrevemos, narra a construção de novas imagens, objetos, sentimentos e emoções, que a aprendizagem nos permitirá (re)construir.

A História que, hoje, escrevemos, (re)funda os nossos sentidos, remetendo as “imagens”, os cheiros e, os ruídos, experienciados e vividos, para o baú das memórias da vida, passada, vivida, transformada.

(Re)nascidos, libertos da proteção do âmnio habitacional, num “parto” em que a argamassa nos dará à luz e, nos devolverá a luz, construiremos sentimentos, novos, e uma, também, nova, “ Consciência” de, igualmente, novas, emoções.

A História que, hoje, escrevemos, (re)interpreta a semântica dos textos e dos sentidos, permitindo-nos, livremente, interpretar o que, agora, pudemos ler, à luz do novo mundo, que nasce para nós – para o qual (re)nascemos.


Jorge Ventura

Professor

“ A existência vivida de acordo com as outras formas de excelência é feliz numa segunda ordem, porquanto as atividades que se produzem desse modo fazem parte do horizonte humano enquanto tal.”

Aristóteles, Ética a Nicómaco

ENSAIO COVID 19 | N.º 10

Perceção e Perspetiva

“TAP vai pagar acima do máximo do layoff”

Luís Villalobos, Público | 1.04.2020

Numa viagem, no tempo, levando, na bagagem, a memória e, no roteiro, a consciência, regressamos ao passado, recente, ainda presente, das passas, Champagne e gala, para assistir, em 1 de janeiro de 2020, ao encerramento do mercado, numa escala que nos levará pelo oriente, Tailândia, Coreia e Japão, de Hiroshima e dos Bonsais, verdes, ancestrais, na esperança de um regresso, cancelado, ao ponto de partida, agora isolado, em 22 de janeiro de 2020.

Regressámos, mais tarde, em 2 de fevereiro de 2020, num voo fretado, de resgate, repatriamento, de cidadãos, libertados e, logo, isolados, num “estúdio”, de “animação”, inspirado na televisão e no seu grande sucesso e, irmão, a tempo de assistir, em 11 de fevereiro de 2020, já em casa, distantes e, “protegidos”, ao batismo da nova infeção, que encerrou o mercado e isolou a nação, COVID -19, que nos convida à reflexão, hoje, nesta viagem, no tempo, ao dia das passas, Champagne e ilusão.

Chegámos tarde, foi a confusão, os atrasos, o tráfego, os aeroportos, as viagens e a globalização, que remeteu, para as calendas, 11 de março de 2020, a declaração, da COVID, como pandemia, com inquietação.

Mas somos Europa, Atenas, Roma, centralidade e, notícia, somos o centro, da infeção, em 13 de março de 2020, sob condição.

Estamos de volta, estamos em casa, fechada, protegida, isolada, mascarada, de medo, de dúvida e de convicção, de que, em 1 de janeiro de 2020, percebemos mal a informação.

Foi do barulho, da turbulência, dos aeroportos e da confusão, que já não existe, bloqueou rotas, cancelou voos, imobilizou aviões, causou estupefação, na redefinição de um tempo de transição.

Jorge Manuel Ventura

Professor

Observação: o título do “ensaio” procura relacionar a incompreensão do passado, recente, presente, e a ilusão do futuro.

O tempo, o novo e perturbador tempo, do isolamento e da estagnação, não é, julgo, apenas, um intervalo. Tenciono voltar ao tema – os exemplos da incompreensão do presente e da ilusão da recaptura do passado, são inúmeros.

ENSAIO COVID 19 | N.º 08

Amanhã

“Governo não sabe se poderá manter a promessa de aumentos salariais de 1% na função pública (2021) ”

Lusa e Público | 29.03.20

O quotidiano que, hoje, nos algema à incerteza, à dúvida, ao desconforto, ao sobressalto, que nos desprende de um sonho, mau, e nos devolve a vigília, a consciência, de que o dia, um novo dia, nascerá, e com ele, o sol, a luz, e as sombras, subestimadas, ofuscadas, pela luz, aconchegante, brilhante, estimulante, para o dia, o novo dia, de esperança, incerteza e dúvida.

Os dias que, hoje, nos subtraem a liberdade e nos impõem somas, de investimento, prioritário e urgente, (des)controlado e adequado, ao combate, que nos alista, a todos, e por todos, divide atenção e cuidado, na efetivação de uma decisão que nos orgulha, compromete, solidariza e remete, para a assunção da condição de cidadão, assumido e casado com a nação.

Os dias que, hoje, adicionam dívida, à dívida, numa sucessão de parcelas com as quais declaro, declaramos, todos, certa, absoluta e inequivocamente concordar, mas que, adicionadas, deixarão uma soma que, todos, absolutamente todos, teremos de assumir e pagar, não permitindo, hoje, projetar uma circunstância harmonizável com a expectativa, legítima, justa e outorgável, mas reconhecidamente, por força da situação e, conjuntura atual, improvável de, amanhã, poder ser realizável.

A solidariedade que, hoje, nos aproxima e convoca, para manifestações, criativas, emotivas, justas e partilháveis, tem de nos acompanhar, no futuro, próximo, num exercício de cidadania, de orgulho, e reconhecimento pelo esforço, hercúleo, para o qual, hoje, estamos alistados.

Observação: Julgo que a situação determinará a adoção de medidas mais extensas, não obstante as decisões do BCE e da CE, que, na minha opinião, não poderão traduzir, o “simplismo”, das adotadas em 2005 e 2011, cujo resultado agravaria o que, já hoje, se pode ler das conclusões do Inquérito à Situação Financeira das Famílias, publicado na Revista dos Estudos Económicos do BP. (tenciono voltar ao tema).

Jorge Manuel Ventura
Professor
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Foto: Do ilustrador Igor Morski

ENSAIO COVID 19 | N.º 04

POLÍTICA

Os dias que arquitetam o presente, inquietante e perturbador, deixam, na opacidade da dúvida, a assunção, incontornável e translúcida, da natureza humana e da luta pela sobrevivência.
Lembram-nos, com irrenunciável violência, os quão utópicos foram os tempos que os antecederam.
Lembram-nos, num grito de desequilíbrio e frustração, quão fortemente desconsiderámos o acesso aos bens de primeira necessidade – e supérfluos, aos cuidados de saúde, aos serviços, à educação e proteção social, aos direitos laborais, ao programa nacional de vacinação, ao tempo de descanso e pausa, às férias e ao convívio familiar e social.
Lembram-nos, num grito de desespero e temor, quão injustos fomos com os dias que aqui nos trouxeram, de utopia e bem-estar, que recorrente e, sistematicamente, teimámos em desconsiderar.
Lembram-nos, com esperança, que a utopia está para chegar.
Estes dias, da política e dos políticos, de decisão e transparência, impõem à política e ao(s) governo(s) a obrigatoriedade de se assumir o pragmatismo em detrimento do idealismo ou dogmatismo.
São dias de união de compromisso comunitário, de exercício cívico que, neste estado de emergência, não autoriza abstenções ou a votação da política e dos políticos à desconsideração e indiferença.
São dias de exigência.
A política assume, hoje, à imagem dos tempos de guerra ou de construção da paz, o papel principal no ato onde, também nós, somos atores.
Estes dias, novos dias, sob o véu diáfano do medo, não deixarão de se constituir como pilares, fortes e, harmonizados, com o projeto do futuro, onde, todos, teremos de ser agentes de proteção, de participação cívica e do resgate da utopia, violenta e inesperadamente, subtraída.
Impõem mudanças no funcionamento das instituições, na ação das lideranças e no funcionamento das democracias.
Estes dias, novos e tensos, lembram-nos o tão, recorrentemente, evocado e tantas vezes ignorado, Tratado de Maastricht (Tratado da União Europeia), que estabeleceu a cidadania europeia e que, agora, nos dias que arquitetam o presente, melhor percebemos.

Hoje, como ontem, a união será a maior força.

Jorge Manuel Ventura
Professor

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“ (…) far-se-á por meio de realizações concretas que criem, em primeiro lugar, uma solidariedade, de facto.”
Robert Shuman, 1950

ENSAIO COVID 19 | N.º 03

 

ESTADO

A Economia centra, hoje, a atenção do(s) Estado(s) e das suas instituições políticas e financeiras, conferindo-se à gestão dos recursos e, à satisfação das necessidades, uma posição de topo, na hierarquização e definição de prioridades dos órgãos de decisão política, financeira e dos altos funcionários: do Estado.
Está, hoje, reservada às instituições, a definição de medidas de proteção e fomento da atividade económica e da limitação dos danos infligidos à produtividade, ao emprego e ao bem-estar dos cidadãos.
Neste tempo, novo, de distopia e preocupação, a definição dos estados de alerta e de emergência, traduzem, inequivocamente, a relevância e a autoridade do Estado.
É o tempo da Política e das suas instituições definirem regras, assumirem escolhas e vislumbrarem caminhos para mitigar o desastre social e económico que se acentua, tanto mais, quanto alastra a pandemia.
É o tempo em que o(s) Estado(s) e o(s) país(es) se confunde(m), numa comunhão, autêntica e descomplexada, submetidos a uma aproximação, maior, na tradução de um paradoxo, que, não raras vezes, os momentos e períodos de crise, determinam.
O passado está “recheado” de crises, catástrofes, pandemias e recessões, violentas, a que se seguiram períodos de crescimento, prosperidade e fruição de bem-estar.
A Europa e o Mundo souberam, sempre, “refundar-se” e, os Estados, suportados em compromissos e tratados internacionais, têm, reconhecidamente, sustentado o desenvolvimento e a melhoria das condições de vida dos cidadãos, dos países e das nações que, hoje, neste tempo de dúvida, limitando a circulação e bloqueando fronteiras, se aproximam, por força de um mecanismo de solidariedade e assunção de responsabilidade conjunta, que “federa” a Europa e nos corresponsabiliza e vincula a uma cidadania europeia.
Este tempo, novo tempo, é o tempo dos burocratas – eurocratas, o tempo da política, do (s) Estado(s) e, de todos, na assunção de uma natureza e cidadania de defesa e proteção da saúde individual e pública.
Quando, em 12 de junho de 1985, foi assinado, em Lisboa, nos Mosteiros dos Jerónimos, o Tratado de Adesão à Comunidade Económica Europeia (CEE), o Estado “lançou” as bases para a refundação do país, que, num futuro, próximo, se voltará a assistir, inevitavelmente.

Jorge Manuel Ventura
Professor

 

ENSAIO COVID 19 | N.º 02

Economia

Submetidos às leis da Biologia, estamos confrontados com a inimaginável desconsideração da nossa autoridade, do nosso Status, hostilizados pelo medo, que nos sequestrou a liberdade, invadiu a privacidade e limitou, perturbadoramente, a afabilidade, neste tempo de absurdo, que subestima a razão e confunde o raciocínio.
Confundem-se, hoje, como nunca, realidades tão diversas como as traduzidas pela Biologia e, a Economia, percebendo-se com, indelével, clareza, que a vida, como hoje se concebe, está refém do dinheiro, raiz da civilização, que nos trouxe a Itália renascentista e onde, por força da disseminação, por comerciantes genoveses, a peste bubónica, peste negra, trazida China por mercadores que percorriam a Rota da Seda, em meados do século XIV, alterou os equilíbrios e a estrutura económica vigente.
Neste tempo de absurdo, um simples spot publicitário a um qualquer bem supérfluo, confunde o nosso raciocínio, submetido à lógica do essencial e, ainda, inadaptado às novas regras do consumo, que determinam o encerramento e o estrangulamento dos fatores de produção, atiram, dolorosa e literalmente, trabalhadores para o desemprego e provocam preocupação, perturbação e medo.
Neste tempo de absurdo, de “guerra”, vislumbra-se a redefinição e a adaptação da produção aos bens, agora, essenciais, não bélicos, mas farmacêuticos e de aplicação hospitalar, vigiam-se preços, para controlar a inflação, provocada pela ação, que não classifico, do Homem, mesmo em tempo de solidariedade e disfuncionalidade.
Precisa-se de liquidez, de injeção de dinheiro, dos bancos centrais e da normalização da Economia.

“Assim é em tempo de guerra, as economias não podem morrer”1

1Mensagem do Presidente da República em 18 de março de 2020

Jorge Manuel Ventura
Professor