ENSAIO COVID 19 | N.º 07

O SNS

Ainda jovem, enfrenta, aos 40 anos, o maior e mais exigente desafio. Invadido por um inimigo, que se movimenta sem regras, se disfarça de um beijo, um toque, um espirro, que lhe limita a destreza e perturba a ação, alterando as rotinas e a atenção, própria e, próxima, mediada pela elegância e salubridade das batas brancas, adornadas por estetoscópios e canetas, coloridas e volumosas, que captam a atenção e motivam gratidão, vê-se, hoje, submetido a uma lógica “fabril”, onde os seus profissionais, dedicados e uniformemente fardados, reinventam as relações e, violam, com receio e altruísmo, as portas e fronteiras, vermelhas, ao encontro dos pacientes, doentes, contagiados, contaminados, isolados, num mundo, que se vislumbra por postigos e se humaniza no medo.

Um inimigo que desfocou o brilho e a sobriedade dos espaços, higienizados, a braços, pelos Operacionais do charme, que discretos, agora vemos, batemos palmas e agradecemos.

Haveremos de lhe devolver a elegância e o calor, humano, que o vermelho, alaranjado, de um qualquer ocaso, de um dia solarengo de agosto, em que o sol, disfarçado de vigia, confundido com um postigo, nos aproxima o horizonte, liberta a mente e capta a atenção, numa inspiração oxigenada e fresca, deslumbra e humaniza.

É assim o Serviço Nacional de Saúde, elegante e humanista.

Jorge Manuel Ventura

Professor

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Criado a 15 de setembro de 1979, pela Lei n.º 56/79, no seio do Ministério dos Assuntos Sociais, foi “ inspirado pelo desejo sincero de servir o povo, criando um sistema eficaz de proteção da saúde, humanizando a medicina e dignificando os utentes e trabalhadores do setor. (…) Saúde e fraternidade é a filosofia intrínseca do SNS”

António Arnaut, 1978 | Jornal Médico