INCÓGNITO (3)

(Ep. 3)

Levámos cadernos, lápis de cor, uma manta – velha, de trapos, tecida no tear, e fomos, para junto da árvore, daquela árvore, para onde, sempre, queria voltar. Hoje, hoje vamos aprender, dizia com um brilho nos olhos, que só o Sol, luminoso e forte, parecia ofuscar. Vamos desenhar, o Sol, as folhas, a sombra, que naquele dia, de verão, quente, se esboçava no chão, denunciando o namoro, discreto, que o Sol e a árvore, aquela árvore, naquele dia, pareciam encetar.

Ouvi, escutei a explicação e olhei – para a sombra, que, devagar, parecia folhear o livro que, ali, dizia guardar.

Hoje, hoje vamos desenhar, e com o desenho aprender a ver, a olhar, a perceber, o que significa crescer, viver, para ser – livre e poder viajar, como a sombra, que nos deixará, quando o Sol partir e, com ele, a levar.

Hoje, hoje vamos desenhar, e no desenho ler o que significa poder partir, viajar, crescer – livre, e poder regressar, àquele lugar, onde a árvore – aquela árvore, nos aguardará, sempre, sem nos questionar – sem nada exigir, estando disponível para nos mostrar o que é a liberdade – para poder pensar.

O Sol, radiante, brilhava no ar, sobre aquela árvore que, imóvel, me ensinou o quão importante é olhar, ver, pensar, reconhecer e valorizar quem nos aguarda, nos escuta, nos mostra que somos livres, que podemos partir e regressar.

Foi aqui, neste lugar, junto a esta árvore, com esta árvore, que percebi o seu gosto pela Botânica, pelos espelhos, pela oftalmologia, pelos outros, pela importância de ver, de olhar.

(Continua…)

Jorge Manuel Ventura
Professor

INCÓGNITO (2)

(Ep. 2)

Era atento, preocupado, peculiar no que, diligentemente, pretendia ensinar.

Naquele dia, agitado e azafamado, estávamos , todos, a preparar o regresso, desejado, de férias, prolongadas, a este lugar. Após o almoço, com sobremesa – era domingo, 28 de junho de 1981, levou-nos, tranquilamente a passear, pelas ruas, quentes, numa tarde solarenga de junho, até ao parque, onde se vendiam gelados – sorvetes; e, eu conhecia bem o sabor e a textura daqueles sorvetes – era a senhora, de avental com bolsos fundos, que eu conhecia do portão da escola, que vendia pastilhas – gorila, que cariavam os dentes aos menos cuidadosos e mais gulosos; e onde, num lago, de águas paradas, toldadas, se viam barcos – gaivotas, e patos.

Regressámos depois, como previsto, a este lugar, onde, sentado, no chão, me quis ensinar a ver, a sentir, a olhar.
Interrogou-me: o que viste no passeio de domingo, nas ruas, no parque, no passeio – calçada? O que aprendeste ao caminhar?

Vi patos, barcos – gaivotas, pessoas, carros, gelados.

Percebi, então, com a explicação, o que não vi; a razão do passeio, na tarde – de arrumação, agitada, ansiada, de preparação do regresso, imperativo, ao lugar que lhe fazia falta, e onde me pôde ensinar que, na cidade, caminhamos pelas ruas, parques, praças e avenidas, desenhadas, cuidadosamente, e vestidas – de árvores, arbustos, canteiros e bustos, que não vemos, não sentimos, não olhamos – não percebemos – a vida, que comungamos.

Foi aqui, neste lugar, junto a esta árvore, com esta árvore, que percebi o seu gosto pela Botânica, pelos espelhos, pela oftalmologia, pelos outros, pela importância de ver, de olhar.

(Continua…)

Jorge Manuel Ventura
Professor

INCÓGNITO (1)

(Ep. 1)

Chegámos tarde, já noite, condicionados pela chuva, intensa, constante, que parecia apostada em nos vigiar, e regressámos, era imperativo, uma necessidade que se manifestava no corpo, uma quase dor, que dizia não ultrapassar.

Regressava – regressava sempre a este lugar, dizia precisar fechar os olhos – para poder olhar, para poder ver, sentir, crer, viver.

Era o seu espaço, o seu tempo – para se olhar, confessava ter sido aqui que aprendeu a ser, a pensar, a reconhecer o sentido, a acreditar.

Dizia-me, recorrentemente, que foi aqui, neste lugar, junto a esta árvore, já velha, secular, que aprendeu a conversar, a olhar – nos olhos, a amar.

Acompanhava-o sempre, desde sempre, mesmo quando não sabia, ainda andar, trazia-me ao colo, ainda me lembro, dos primeiros passos e, mais tarde, das conversas, do caminhar.

Recordo, com saudade, a fé que me transmitia, o que me dizia – aprendi aqui, a ler Santo Agostinho, que citava, insistentemente, para concluir que a fé tem olhos próprios, que nos fazem ver, sentir, viver, crer.

Foi aqui, neste lugar, junto a esta árvore, com esta árvore, que percebi o seu gosto pela Botânica, pelos espelhos, pela oftalmologia, pelos outros, pela importância de ver, de olhar.

(Continua…)

Jorge Manuel Ventura
Professor


AMANHÃ

“Sem a matemática, não é possível chegar ao fundo da filosofia; sem a filosofia não se chega ao fundo da matemática; e sem as duas, não se chega ao fundo de nada.”
Jean- Charles de Borda ( 1733-1799)

A expressão – “já não temos começos”, que sinaliza o início de Gramáticas da Criação, de George Steiner, convida-nos a olhar o amanhã, iluminado pela luz – natural, do sol que submete as sombras, de que Platão nos parece querer libertar, na procura e interpretação do “infinito”, que a matemática nos convida a vislumbrar.
Sou, assim, persuadido a olhar o amanhã como integrante de um eixo – temporal, real, que nos leva a viajar – pelo passado, e a experimentar contar – o tempo, finito, que Platão – no Fédon, parece querer contrariar.
É o tempo, sempre o tempo, que me parece preocupar, o amanhã, o futuro – a flexão verbal e o conhecimento que desejo conquistar.
Regresso, hoje, já tarde, ao final do dia, quando a noite chega e o amanhã, imperturbável, se anuncia devagar, convidando-me, como na caverna – de Platão, a olhar as sombras do que, amanhã, parece traduzir o recomeçar, contrariando o que nos anuncia o eixo – temporal, real, que nos adiciona parcelas – histórias, memórias, tempo, ao qual não é possível regressar.
“Já não temos começos”.

Jorge Manuel Ventura
Professor

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“Diz-se que a diferença mais importante entre a ciência e a tecnologia é o facto da primeira mudar a nossa maneira de ver o mundo e a segunda a nossa maneira de o viver. Seguindo esta ordem de ideias, podemos afirmar que o relógio mecânico foi uma das invenções mais revolucionárias da história da humanidade, e das que mais influenciaram a vida quotidiana das pessoas.”

Enrique Gracián