ENSAIO COVID 19 | N.º 12

AURORA

Terminamos, hoje, a contagem, lenta, dos dias de emergência; iniciamos, amanhã, a contagem, ponderada, dos dias de calamidade.

Vivemos dias incomuns; experimentamos o medo, a incerteza, a notícia – repetida, submetida, confinada – que nos trouxe as ruas, as palmas, as telas e as salas, de onde redescobrimos as praças, os vizinhos, os sons e os passarinhos, num refúgio, sanitário, que nos mostrou aviões, estacionados; navios, amarrados; hospitais, sobrelotados; e nos aproximou, o mundo, acorrentado ao medo, à incerteza, e à notícia – repetida, submetida.

Amanhã, iniciamos a viagem de regresso ao aconchego dos dias que a memória guardou e, aludidos, nos devolvem a esperança de que, o comum, “tudo vai ficar bem”, possa traduzir, o desejado, “tudo vai ficar igual”.

Hoje, terminamos a contagem dos dias de emergência; amanhã, começamos a fazer, as contas, a que a “calamidade”, num enunciado, confuso, impreciso, desestruturado e, inaudito, nos apresentou.

Na viagem que, hoje, terminamos, com escala em doze ensaios e, uma opinião, “fotografámos / fotografamos” a nossa condição, biológica; a nossa dimensão, social, económica, política; a nossa predisposição, solidária; e a nossa acuidade, crítica.

Amanhã, iniciamos uma nova viagem, que nos levará a olhar, para nós, para os outros, para as instituições, para Portugal, para as nações, para a solidariedade e as gerações.

Amanhã, iniciamos uma nova viagem, autorizada, que nos levará à descoberta de novas latitudes, conhecidas, reconhecidas, exploradas, inexploradas, mas sempre, estou convicto, projetadas, numa imagem, passível de correções, aprovações, reprovações e, opiniões.

Bem-vindos a bordo.

Muito obrigado.

Jorge Manuel ventura

ENSAIO COVID 19 | N.º 11

(Re)nascer

“ Que mundo vamos encontrar quando sairmos à rua?”

João A. Dias, Observador | 12.04.2020


A História que, hoje, escrevemos, não admite traduções nem se sujeita a interpretações; adota uma sintaxe universal e, induz uma semântica pessoal.

(Re)interpreta a vida, os objetos e as imagens que argamassam a “consciência”, a memória e, o tempo.

A História que, hoje, escrevemos, (re)fecunda-nos num embrião que aguarda, semana após semana, no útero protetor, em que se transformou a habitação, a hora do (re)nascimento, onde a luz e, a vida, nos voltarão a abraçar.

A História que, hoje, escrevemos, devolve-nos a inocência, o desconhecimento e, o desejo e a sede de decidir, que nos emancipará, como adultos, tomando consciência de nós e do ambiente, na construção da vida, nova, outra, e da arte que a mesma exige.

A História que, hoje, escrevemos, narra a construção de novas imagens, objetos, sentimentos e emoções, que a aprendizagem nos permitirá (re)construir.

A História que, hoje, escrevemos, (re)funda os nossos sentidos, remetendo as “imagens”, os cheiros e, os ruídos, experienciados e vividos, para o baú das memórias da vida, passada, vivida, transformada.

(Re)nascidos, libertos da proteção do âmnio habitacional, num “parto” em que a argamassa nos dará à luz e, nos devolverá a luz, construiremos sentimentos, novos, e uma, também, nova, “ Consciência” de, igualmente, novas, emoções.

A História que, hoje, escrevemos, (re)interpreta a semântica dos textos e dos sentidos, permitindo-nos, livremente, interpretar o que, agora, pudemos ler, à luz do novo mundo, que nasce para nós – para o qual (re)nascemos.


Jorge Ventura

Professor

“ A existência vivida de acordo com as outras formas de excelência é feliz numa segunda ordem, porquanto as atividades que se produzem desse modo fazem parte do horizonte humano enquanto tal.”

Aristóteles, Ética a Nicómaco

ENSAIO COVID 19 | N.º 10

Perceção e Perspetiva

“TAP vai pagar acima do máximo do layoff”

Luís Villalobos, Público | 1.04.2020

Numa viagem, no tempo, levando, na bagagem, a memória e, no roteiro, a consciência, regressamos ao passado, recente, ainda presente, das passas, Champagne e gala, para assistir, em 1 de janeiro de 2020, ao encerramento do mercado, numa escala que nos levará pelo oriente, Tailândia, Coreia e Japão, de Hiroshima e dos Bonsais, verdes, ancestrais, na esperança de um regresso, cancelado, ao ponto de partida, agora isolado, em 22 de janeiro de 2020.

Regressámos, mais tarde, em 2 de fevereiro de 2020, num voo fretado, de resgate, repatriamento, de cidadãos, libertados e, logo, isolados, num “estúdio”, de “animação”, inspirado na televisão e no seu grande sucesso e, irmão, a tempo de assistir, em 11 de fevereiro de 2020, já em casa, distantes e, “protegidos”, ao batismo da nova infeção, que encerrou o mercado e isolou a nação, COVID -19, que nos convida à reflexão, hoje, nesta viagem, no tempo, ao dia das passas, Champagne e ilusão.

Chegámos tarde, foi a confusão, os atrasos, o tráfego, os aeroportos, as viagens e a globalização, que remeteu, para as calendas, 11 de março de 2020, a declaração, da COVID, como pandemia, com inquietação.

Mas somos Europa, Atenas, Roma, centralidade e, notícia, somos o centro, da infeção, em 13 de março de 2020, sob condição.

Estamos de volta, estamos em casa, fechada, protegida, isolada, mascarada, de medo, de dúvida e de convicção, de que, em 1 de janeiro de 2020, percebemos mal a informação.

Foi do barulho, da turbulência, dos aeroportos e da confusão, que já não existe, bloqueou rotas, cancelou voos, imobilizou aviões, causou estupefação, na redefinição de um tempo de transição.

Jorge Manuel Ventura

Professor

Observação: o título do “ensaio” procura relacionar a incompreensão do passado, recente, presente, e a ilusão do futuro.

O tempo, o novo e perturbador tempo, do isolamento e da estagnação, não é, julgo, apenas, um intervalo. Tenciono voltar ao tema – os exemplos da incompreensão do presente e da ilusão da recaptura do passado, são inúmeros.

ENSAIO COVID 19 | N.º 09

Forças Armadas

“Forças Armadas desinfetam, montam tendas e camas, transportam e dão alimentos.”

 Nuno Ribeiro, Público | 1.04.2020

A detonação das bombas, noticiosas, que nos estremecem os tímpanos e enternecem o coração, perante o ataque, sem escrúpulos, a alvos civis e expostos, do inimigo que nos invadiu o território e violou a soberania, provocando baixas, com vida, vidas, com história, memória, dos tempos que nos embalavam, em sonos tranquilos, e nos seguravam, a mão, numa caminhada protegida, segura, que nos defendia, protegia, do perigo e do medo, de tudo, da noite e do escuro, trouxe, à luz, do dia, dos dias, estranhos e vividos, protegidos, escondidos, as Forças Armadas e a sua ação e missão.

São dias de crise, de perigo, de atenção e preocupação, que nos educam, reeducam, num exercício de memória do tempo da obrigação, do recenseamento, que nos dizia e fazia, sentir, mancebos, pequenos, numa instituição pesada, gigante, fundamental e relevante, para a vida, proteção e nação.

A crise, global, que, hoje, indiscriminada e arbitrariamente, se abateu sobre nós, invoca o conflito e a ação, concertada e subordinada, a princípios, tratados e pactos, partilhados, assumidos e assinados, por todos, representados nas instituições, que nos representam, a nós e às nações.

Observação: os tempos que vivemos, de ajuda transnacional e intervenção Militar, trazem-nos à memória os tratados, internacionais, fundamentais e fundacionais, do que, hoje, somos, e, hoje, como ontem, somos estado, nação, bandeira, instituição e razão, em reconhecer, na instituição, Militar, um pouco de nós.

As Forças Armadas representam-nos, hoje, em território nacional e internacional – no âmbito da NATO, da ONU, ou fruto de necessidades e preocupações bilaterais ou multilaterais, evocando o Pacto Atlântico, assinado em Washington, curiosamente, em abril, de 1949, que nos aviva o princípio da solidariedade e da proteção, mútuas, podendo inferir-se do seu artigo 5.º, o que hoje vivemos e percebemos – um por todos, todos por um, à imagem do oportuno – cuide de si, cuide dos outros.

Nota: O Pacto Atlântico foi assinado, em Washington, em 4 de abril de 1949, pelos cinco países signatários do tratado de Bruxelas, os EUA, o Canadá, a Noruega, a Dinamarca, a Islândia, Portugal e Itália.  

Jorge Manuel Ventura

Professor

ENSAIO COVID 19 | N.º 08

Amanhã

“Governo não sabe se poderá manter a promessa de aumentos salariais de 1% na função pública (2021) ”

Lusa e Público | 29.03.20

O quotidiano que, hoje, nos algema à incerteza, à dúvida, ao desconforto, ao sobressalto, que nos desprende de um sonho, mau, e nos devolve a vigília, a consciência, de que o dia, um novo dia, nascerá, e com ele, o sol, a luz, e as sombras, subestimadas, ofuscadas, pela luz, aconchegante, brilhante, estimulante, para o dia, o novo dia, de esperança, incerteza e dúvida.

Os dias que, hoje, nos subtraem a liberdade e nos impõem somas, de investimento, prioritário e urgente, (des)controlado e adequado, ao combate, que nos alista, a todos, e por todos, divide atenção e cuidado, na efetivação de uma decisão que nos orgulha, compromete, solidariza e remete, para a assunção da condição de cidadão, assumido e casado com a nação.

Os dias que, hoje, adicionam dívida, à dívida, numa sucessão de parcelas com as quais declaro, declaramos, todos, certa, absoluta e inequivocamente concordar, mas que, adicionadas, deixarão uma soma que, todos, absolutamente todos, teremos de assumir e pagar, não permitindo, hoje, projetar uma circunstância harmonizável com a expectativa, legítima, justa e outorgável, mas reconhecidamente, por força da situação e, conjuntura atual, improvável de, amanhã, poder ser realizável.

A solidariedade que, hoje, nos aproxima e convoca, para manifestações, criativas, emotivas, justas e partilháveis, tem de nos acompanhar, no futuro, próximo, num exercício de cidadania, de orgulho, e reconhecimento pelo esforço, hercúleo, para o qual, hoje, estamos alistados.

Observação: Julgo que a situação determinará a adoção de medidas mais extensas, não obstante as decisões do BCE e da CE, que, na minha opinião, não poderão traduzir, o “simplismo”, das adotadas em 2005 e 2011, cujo resultado agravaria o que, já hoje, se pode ler das conclusões do Inquérito à Situação Financeira das Famílias, publicado na Revista dos Estudos Económicos do BP. (tenciono voltar ao tema).

Jorge Manuel Ventura
Professor
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Foto: Do ilustrador Igor Morski

ENSAIO COVID 19 | N.º 07

O SNS

Ainda jovem, enfrenta, aos 40 anos, o maior e mais exigente desafio. Invadido por um inimigo, que se movimenta sem regras, se disfarça de um beijo, um toque, um espirro, que lhe limita a destreza e perturba a ação, alterando as rotinas e a atenção, própria e, próxima, mediada pela elegância e salubridade das batas brancas, adornadas por estetoscópios e canetas, coloridas e volumosas, que captam a atenção e motivam gratidão, vê-se, hoje, submetido a uma lógica “fabril”, onde os seus profissionais, dedicados e uniformemente fardados, reinventam as relações e, violam, com receio e altruísmo, as portas e fronteiras, vermelhas, ao encontro dos pacientes, doentes, contagiados, contaminados, isolados, num mundo, que se vislumbra por postigos e se humaniza no medo.

Um inimigo que desfocou o brilho e a sobriedade dos espaços, higienizados, a braços, pelos Operacionais do charme, que discretos, agora vemos, batemos palmas e agradecemos.

Haveremos de lhe devolver a elegância e o calor, humano, que o vermelho, alaranjado, de um qualquer ocaso, de um dia solarengo de agosto, em que o sol, disfarçado de vigia, confundido com um postigo, nos aproxima o horizonte, liberta a mente e capta a atenção, numa inspiração oxigenada e fresca, deslumbra e humaniza.

É assim o Serviço Nacional de Saúde, elegante e humanista.

Jorge Manuel Ventura

Professor

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Criado a 15 de setembro de 1979, pela Lei n.º 56/79, no seio do Ministério dos Assuntos Sociais, foi “ inspirado pelo desejo sincero de servir o povo, criando um sistema eficaz de proteção da saúde, humanizando a medicina e dignificando os utentes e trabalhadores do setor. (…) Saúde e fraternidade é a filosofia intrínseca do SNS”

António Arnaut, 1978 | Jornal Médico

OPINIÃO COVID 19 | N.º 01

Solidariedade

PM pede «eurobonds ou coronabonds ou que lhe queiram chamar», obrigações europeias comuns para responder a um problema «que é também ele comum» ”

Luís Reis Ribeiro, Dinheiro Vivo |24.03.2020

“ BCE abandona limites e já pode comprar mais dívida portuguesa

Sérgio Aníbal, Público | 26.03.2020

Em estado de emergência e sujeitos a um confinamento, determinado superiormente, e outorgado, individual e familiarmente, por subscrição da urgência que as labaredas, febris e asfixiantes, de um fogo que lavra com voracidade e insubordinação, consumindo o oxigénio que, silenciosa e covardemente, furta aos mais frágeis, numa indiferença imoral, e subversão, drástica, da ordem e, do contrato social, acorremos, numa solidariedade de natureza e extensão continentais, autorizando fluxos e caudais, titânicos e essenciais, para preencher uma albufeira profunda, em rutura iminente e fugas, estruturais.

É a conjuntura, a emergência, a união e a força, bruta e desalinhada, é tempo de guerra, e, em tempo de guerra: “quero mais à minha pátria do que à minha Alma” – Niccoló Machiarelli, 1527.

Assim, numa Europa a arder, a assunção de uma solidariedade regional, não ideológica e transversal, reforçará a sua legitimidade transnacional e, conferir-lhe-á um caráter mais popular e comunitário, mitigando os efeitos da legítima e aceitável, pretensão de soberania nacional, numa integração europeia que, hoje, particularmente hoje, não pode capitular.

A Europa tem de ser, hoje, mais do que a geografia que nos leva do atlântico aos Urais, tem de ser um quartel onde, agora, todos seremos soldados, comprometidos e, também, iguais.

Jorge Manuel Ventura

Professor

No meio do caminho em nossa vida,

Eu me encontrei por uma selva escura

Porque a direita via era perdida.

Ah, só dizer o que era é cousa dura

Esta selva selvagem, aspra e forte,

que de temor renova à mente a agrura!

Tão amarga é, que pouco mais é morte;

mas, por tratar do bem que eu nela achei,

direi mais cousas vistas de tal sorte.(…),

Alighieri, Dante, Divina Comédia, Canto I, Na selva escura

(Tradução: Vasco Graça Moura)

ENSAIO COVID 19 | N.º 06

MEMÓRIA

Atores, nesta peça que, hoje, a realidade encena, ocorre-nos evocar o passado e todos os episódios e ensinamentos que, dele, pudemos colher.
A peça, sob o título, Pandemia, invoca a guerra e reduz-nos ao papel de beligerantes, num roteiro em que o(s) diretor(es) procura(m), num exercício comprometido e complexo, alterar o texto, de um teatro de máscaras onde os heróis são os médicos, os enfermeiros, os administrativos, os auxiliares e, agora, também, entre tantos outros, os militares.
A crise, que o roteiro antecipa, evoca o passado, 2007, com os empréstimos subprime (EUA), e daí, dando visibilidade às disfuncionalidades dos sistemas e da sociedade, suportadas num contexto de descontrolo e desregulamentação, geraram a toxicidade que, em 2008, determinou falências, desemprego e intervenção do(s) estado(s), submetidos à profundidade e dimensão da emergência a que globalização conferiu natureza pandémica.
Alemanha, França, Espanha, Itália, Dinamarca, EUA, Portugal e, outros, veem-se, hoje, tal como ontem, submetidos à urgência que a emergência e, as falências, parecem poder determinar, intervêm na economia, injetando dinheiro, tomando posições acionistas e, até, nacionalizando.
Procuramos, com esperança, antecipar o futuro, tentando garantir a produção, o emprego, a operacionalidade das empresas e os rendimentos familiares.
Procuramos, com esperança, resgatar o passado, do crescimento, da mobilidade e da prosperidade.
A “guerra”, que a peça parece evocar, garantiu, quando terminada, enormes sobras de aviões de transporte que, convertidos, abriram novas rotas e puderam voar.
A peça, cujo termo não se consegue antecipar, parece querer deixar sobras que jamais poderão levantar.

Jorge Manuel Ventura
Professor

ENSAIO COVID 19 | N.º 05

RAZÃO

“ Em Itália, equipas médicas decidem quem tem mais probabilidade de viver para entrar nos cuidados intensivos. Em Espanha, onde a pandemia acelerou nos últimos dias, já há um guia para ajudar na decisão. Os mais velhos ficam com menos hipóteses de tratamento.”

António Rodrigues, Público |20-03-2020

Assistimos, atónitos, neste tempo de contradição, à emancipação de um utilitarismo enviesado, circunstancial e de quase alienação.
A atenção e proteção dirigida, intencionalmente, aos mais frágeis, desprotegidos e velhos, para onde todos caminhamos, constitui um indicador, matricial, do desenvolvimento e da evolução civilizacional.
Decidir, com base em critérios de probabilidade de sobrevida, quem pode ou, alternativamente, quem não pode, ter acesso a cuidados de saúde, urgentes e essenciais, é um exercício de prefiguração do indizível.
Atónitos, não reagimos, e neste tempo do intraduzível, validamos o absurdo, numa lógica instintiva e incivilizada de sobrevivência.
Estamos, como Descarte, perante uma metafísica pouco comum – traduzida pelo seu enunciado, “ já disse anteriormente que há muito tempo que observara ser, às vezes, preciso, quanto aos costumes, seguir opiniões que se sabem muito incertas, tal como se fossem indubitáveis.”1
Vivemos um tempo onde – como na inscrição que, também, Descartes escolheu para o seu túmulo, “« Bene qui latuit, bene vixit», dos Tristia de Ovídio, 3.4.25. A tradução é: «aquele que se escondeu bem, viveu bem» 2

Jorge Manuel Ventura
Professor

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1 Descartes, 4.ª parte do Discurso do Método (1637)
2 Damásio, O Erro de Descartes (2011)

ENSAIO COVID 19 | N.º 04

POLÍTICA

Os dias que arquitetam o presente, inquietante e perturbador, deixam, na opacidade da dúvida, a assunção, incontornável e translúcida, da natureza humana e da luta pela sobrevivência.
Lembram-nos, com irrenunciável violência, os quão utópicos foram os tempos que os antecederam.
Lembram-nos, num grito de desequilíbrio e frustração, quão fortemente desconsiderámos o acesso aos bens de primeira necessidade – e supérfluos, aos cuidados de saúde, aos serviços, à educação e proteção social, aos direitos laborais, ao programa nacional de vacinação, ao tempo de descanso e pausa, às férias e ao convívio familiar e social.
Lembram-nos, num grito de desespero e temor, quão injustos fomos com os dias que aqui nos trouxeram, de utopia e bem-estar, que recorrente e, sistematicamente, teimámos em desconsiderar.
Lembram-nos, com esperança, que a utopia está para chegar.
Estes dias, da política e dos políticos, de decisão e transparência, impõem à política e ao(s) governo(s) a obrigatoriedade de se assumir o pragmatismo em detrimento do idealismo ou dogmatismo.
São dias de união de compromisso comunitário, de exercício cívico que, neste estado de emergência, não autoriza abstenções ou a votação da política e dos políticos à desconsideração e indiferença.
São dias de exigência.
A política assume, hoje, à imagem dos tempos de guerra ou de construção da paz, o papel principal no ato onde, também nós, somos atores.
Estes dias, novos dias, sob o véu diáfano do medo, não deixarão de se constituir como pilares, fortes e, harmonizados, com o projeto do futuro, onde, todos, teremos de ser agentes de proteção, de participação cívica e do resgate da utopia, violenta e inesperadamente, subtraída.
Impõem mudanças no funcionamento das instituições, na ação das lideranças e no funcionamento das democracias.
Estes dias, novos e tensos, lembram-nos o tão, recorrentemente, evocado e tantas vezes ignorado, Tratado de Maastricht (Tratado da União Europeia), que estabeleceu a cidadania europeia e que, agora, nos dias que arquitetam o presente, melhor percebemos.

Hoje, como ontem, a união será a maior força.

Jorge Manuel Ventura
Professor

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“ (…) far-se-á por meio de realizações concretas que criem, em primeiro lugar, uma solidariedade, de facto.”
Robert Shuman, 1950

ENSAIO COVID 19 | N.º 03

 

ESTADO

A Economia centra, hoje, a atenção do(s) Estado(s) e das suas instituições políticas e financeiras, conferindo-se à gestão dos recursos e, à satisfação das necessidades, uma posição de topo, na hierarquização e definição de prioridades dos órgãos de decisão política, financeira e dos altos funcionários: do Estado.
Está, hoje, reservada às instituições, a definição de medidas de proteção e fomento da atividade económica e da limitação dos danos infligidos à produtividade, ao emprego e ao bem-estar dos cidadãos.
Neste tempo, novo, de distopia e preocupação, a definição dos estados de alerta e de emergência, traduzem, inequivocamente, a relevância e a autoridade do Estado.
É o tempo da Política e das suas instituições definirem regras, assumirem escolhas e vislumbrarem caminhos para mitigar o desastre social e económico que se acentua, tanto mais, quanto alastra a pandemia.
É o tempo em que o(s) Estado(s) e o(s) país(es) se confunde(m), numa comunhão, autêntica e descomplexada, submetidos a uma aproximação, maior, na tradução de um paradoxo, que, não raras vezes, os momentos e períodos de crise, determinam.
O passado está “recheado” de crises, catástrofes, pandemias e recessões, violentas, a que se seguiram períodos de crescimento, prosperidade e fruição de bem-estar.
A Europa e o Mundo souberam, sempre, “refundar-se” e, os Estados, suportados em compromissos e tratados internacionais, têm, reconhecidamente, sustentado o desenvolvimento e a melhoria das condições de vida dos cidadãos, dos países e das nações que, hoje, neste tempo de dúvida, limitando a circulação e bloqueando fronteiras, se aproximam, por força de um mecanismo de solidariedade e assunção de responsabilidade conjunta, que “federa” a Europa e nos corresponsabiliza e vincula a uma cidadania europeia.
Este tempo, novo tempo, é o tempo dos burocratas – eurocratas, o tempo da política, do (s) Estado(s) e, de todos, na assunção de uma natureza e cidadania de defesa e proteção da saúde individual e pública.
Quando, em 12 de junho de 1985, foi assinado, em Lisboa, nos Mosteiros dos Jerónimos, o Tratado de Adesão à Comunidade Económica Europeia (CEE), o Estado “lançou” as bases para a refundação do país, que, num futuro, próximo, se voltará a assistir, inevitavelmente.

Jorge Manuel Ventura
Professor

 

ENSAIO COVID 19 | N.º 02

Economia

Submetidos às leis da Biologia, estamos confrontados com a inimaginável desconsideração da nossa autoridade, do nosso Status, hostilizados pelo medo, que nos sequestrou a liberdade, invadiu a privacidade e limitou, perturbadoramente, a afabilidade, neste tempo de absurdo, que subestima a razão e confunde o raciocínio.
Confundem-se, hoje, como nunca, realidades tão diversas como as traduzidas pela Biologia e, a Economia, percebendo-se com, indelével, clareza, que a vida, como hoje se concebe, está refém do dinheiro, raiz da civilização, que nos trouxe a Itália renascentista e onde, por força da disseminação, por comerciantes genoveses, a peste bubónica, peste negra, trazida China por mercadores que percorriam a Rota da Seda, em meados do século XIV, alterou os equilíbrios e a estrutura económica vigente.
Neste tempo de absurdo, um simples spot publicitário a um qualquer bem supérfluo, confunde o nosso raciocínio, submetido à lógica do essencial e, ainda, inadaptado às novas regras do consumo, que determinam o encerramento e o estrangulamento dos fatores de produção, atiram, dolorosa e literalmente, trabalhadores para o desemprego e provocam preocupação, perturbação e medo.
Neste tempo de absurdo, de “guerra”, vislumbra-se a redefinição e a adaptação da produção aos bens, agora, essenciais, não bélicos, mas farmacêuticos e de aplicação hospitalar, vigiam-se preços, para controlar a inflação, provocada pela ação, que não classifico, do Homem, mesmo em tempo de solidariedade e disfuncionalidade.
Precisa-se de liquidez, de injeção de dinheiro, dos bancos centrais e da normalização da Economia.

“Assim é em tempo de guerra, as economias não podem morrer”1

1Mensagem do Presidente da República em 18 de março de 2020

Jorge Manuel Ventura
Professor

 

ENSAIO COVID 19 | N.º 01

Hoje

A experiência a que, hoje, estamos submetidos, interroga-nos, violentamente, sobre a nossa natureza civilizacional, ressuscita fragmentos da nossa história e limita-nos à nossa condição de fração da Biologia.
Estamos, à imagem de milhões de espécies, sujeitos à luta pela existência e à competição do mais apto pela sobrevivência.
A Biologia e as suas leis, impõem à Filosofia, à Arte, à Matemática e ao Direito, regras que atentam contra o status quo e redefinem os nossos padrões de vivência e convivência, civilizacionais.
A cooperação entre nós, passou a alicerçar a prossecução da ordem social, e o Estado, suportado nas premissas de organização e defesa, federo-nos numa cidadania protetora, com sentido de integração e pertença.
A experiência a que, hoje, estamos submetidos, convoca-nos para um olhar, despojado de preconceitos, sobre nós, convidando-nos, autoritariamente, impondo-nos, a indisfarçável necessidade de olhar o outro.
Sem alternativa, olhamos o outro, os outros, numa perturbadora subversão do código moral, que nos impele a afastar e a ver, em cada um, uma assustadora semelhança, tradutora da submissão às leis da Biologia, que hoje, determinam as nossas vidas.

Jorge Manuel Ventura
Professor